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Josmar Jozino

Tiro do 12º andar matou, na rua, "Maçãzinha", jovem viciada em crack em SP

Enterro da jovem Cristiane Gaidies, 20, a Maçãzinha, baleada quando tentava furtar um toca-fitas. A mãe da menina abraça o filho Rogério. ao lado do outro filho, Marcelo - Lalo de Almeida/Folha Imagem/Lalo de Almeida/Folhapress
Enterro da jovem Cristiane Gaidies, 20, a Maçãzinha, baleada quando tentava furtar um toca-fitas. A mãe da menina abraça o filho Rogério. ao lado do outro filho, Marcelo Imagem: Lalo de Almeida/Folha Imagem/Lalo de Almeida/Folhapress
Josmar Jozino

Sobre o Autor - Josmar Jozino é jornalista desde 1985. Autor de quatro livros, sendo três sobre crime organizado entre eles, "Cobras e Lagartos", obra referência sobre a facção criminosa PCC que recebeu menção honrosa do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog em 2005

Colunista do UOL

15/06/2022 04h00

Foi um tiro certeiro e fatal. Disparado do 12º andar de um prédio da rua Frei Caneca, na Bela Vista, região central da capital paulista. A bala atingiu em cheio as costas de Cristiane Gaidies, 20, a Maçãzinha, como era conhecida. Ela estava na calçada da via, com um amigo, tentando furtar o toca-fitas de um veículo.

Maçãzinha foi socorrida por policiais militares e levada para um hospital. Ela não resistiu. O caso aconteceu em 22 de outubro de 1995 e teve grande repercussão. Na época, a cracolândia estava surgindo, e o Brasil engatinhava na discussão sobre o desarmamento.

O atirador, Ronaldo Fernandez Tomé, tinha 29 anos, estava em uma festa e, da janela de um apartamento, viu os jovens tentando furtar toca-fitas de seu veículo. Segundo investigações da Polícia Civil, ele sacou a pistola 765 e efetuou dez disparos. Uma das balas atingiu mortalmente a garota.

Tomé hoje, aos 55 anos, exerce a advocacia. A reportagem entrou em contato com ele nesta terça-feira (14). O advogado não quis falar muito sobre o assunto. Disse que atirou para assustar e impedir o furto. Contou que ficou preso por dois anos e que sofreu muito.

macazinha, atirador - João Quaresma/Folha Imagem/João Quaresma/Folhapress - João Quaresma/Folha Imagem/João Quaresma/Folhapress
Ronaldo Fernandes Tomé presta depoimento na 4ª DP, na Consolação. Ele cumpriu dois anos de prisão pela morte de Cristiane Gaidies
Imagem: João Quaresma/Folha Imagem/João Quaresma/Folhapress

Os advogados de Tomé, já falecidos, alegaram legítima defesa. O então promotor de Justiça Luiz Fernando Vaggione derrubou a tese. Em 9 de março de 1998, o 1º Tribunal do Júri da Capital condenou o atirador a seis anos de prisão.

Vítima e vilão

Segundo Tomé, ele passou por vilão perante a opinião pública e Maçãzinha, por vítima. O advogado afirmou que a jovem era ladra, tinha antecedentes criminais e havia cometido uma série de roubos. Ele acrescentou que andava armado porque havia sido assaltado antes. E ressaltou que jamais teve a intenção de matar.

Cristiane era uma jovem bonita. Tinha os cabelos cor de mel. Era alegre, sorridente e de família de classe média. A mãe era psicóloga e o pai, cirurgião-dentista. Após abandonar os estudos, Maçãzinha passou a andar com outras companhias.

A garota entrou no mundo das drogas. Começou pela maconha, até migrar para o crack. A família não desistiu de ajudá-la. Ela foi internada em três centros de recuperação para drogados. Em uma das clínicas ficou um mês, mas quando saiu teve uma recaída.

maçãozinha, rg - Lalo de Almeida/Folha Imagem/Lalo de Almeida/Folhapress - Lalo de Almeida/Folha Imagem/Lalo de Almeida/Folhapress
25/10/1995 - Reprodução da carteira de identidade de Cristiane Gaidies, 20, a Maçãzinha
Imagem: Lalo de Almeida/Folha Imagem/Lalo de Almeida/Folhapress

A mãe dela disse à imprensa na época que a filha era uma menina normal e estudiosa, até se envolver com drogas. Maçãzinha vivia nas ruas havia um ano e meio. Tinha o hábito de fugir de casa e ficava fora por algum período. Virou andarilha e vagava pelo centro da cidade.

Ela chegou a ser presa três vezes por furto. Foi condenada em dois processos a uma pena total de quatro anos e quatro meses. Policiais civis disseram na ocasião que a menina cometia os crimes para arrumar dinheiro e poder pagar as dívidas de drogas com traficantes.

Por causa do vício, Maçãzinha deixou o lar da família, no Butantã, zona oeste de São Paulo, e foi morar em casas abandonadas, com instalações precárias e sem condições mínimas de higiene. Assim ela permaneceu até os últimos dias de sua vida.

Maçãzinha foi enterrada às 12h do dia 24 de outubro de 1995, no Cemitério Gethsêmani, no Morumbi, zona sul de São Paulo. Além dos pais, compareceram à cerimônia três dos quatro irmãos dela, parentes e amigos da família.