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REPORTAGEM

Saiba como e quando o PCC se infiltrou nas empresas de ônibus em São Paulo

Antônio José Muller Júnior, o Granada, integrante da cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital) Imagem: Reprodução
Josmar Jozino

Colunista do UOL

29/06/2022 04h00Atualizada em 01/07/2022 14h22

Tudo começou em abril de 2000. Foi quando Antônio José Muller Júnior, 56, o Granada, integrante da cúpula do PCC (Primeiro Comando da Capital), hoje recolhido na Presídio Federal de Brasília, havia sido resgatado da Penitenciária de Hortolândia, no interior de São Paulo.

Segundo o MP-SP (Ministério Público do Estado de São Paulo), Granada, dois anos após ser resgatado, usou documento falso em nome de Agnaldo de Souza Ferreira e assumiu o cargo de diretor da Transmetro, uma cooperativa de transporte coletivo municipal e intermunicipal sediada em Diadema (SP).

As investigações do MP-SP apontaram que Granada tornou-se o líder da máfia dos perueiros e passou a cobrar uma espécie de "taxa de manutenção" no valor de R$ 15 mil de cada condutor que quisesse fazer parte da cooperativa.

Os agentes apuraram que Granada ficava com R$ 2 mil de cada motorista. Quem não pagasse o "pedágio" e não respeitasse as determinações dele era ameaçado de morte. De acordo com o MP-SP, o criminoso do PCC é investigado pelo desaparecimento de três perueiros.

Em maio de 2003, "a casa caiu" definitivamente para Granada. Ele foi preso em uma chácara em Paulínia (SP) por policiais do Denarc (Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico), sob a acusação de usar a cooperativa para lavar o dinheiro do PCC.

Preso na Penitenciária de Araraquara, Granada foi acusado de continuar no comando na máfia dos perueiros. Foi o que revelou à Polícia Civil, em junho de 2006, Luiz Carlos Efigênio Pacheco, então presidente da Cooper Pan, uma das principais cooperativas de transportes alternativos de São Paulo.

Pacheco, também conhecido pelos perueiros como Pandora, havia sido preso por suspeita de financiar com dinheiro da Cooper Pan a tentativa de resgate de um preso chamado Nivaldo, na Cadeia Pública de Santo André, em 5 de março de 2006.

Ao prestar depoimento, Pandora contou que o crime havia sido planejado por Granada e que Nivaldo, o alvo do resgate, era irmão de um presidiário apelidado de Branco, que também estava recolhido na Penitenciária de Araraquara junto com o chefe da máfia dos perueiros.

No depoimento, Pandora revelou ainda que após a prisão de Granada, a Transmetro foi extinta, mas todos os perueiros da empresa, principalmente os que mantinham ligações com o PCC, tiveram de ser incluídos na garagem 2 da cooperativa Cooper Pan.

Procurado pela reportagem, o advogado de Granada, Eliseu Minichillo, disse que seu cliente está preso há mais de 15 anos e não tem nenhuma relação com os crimes investigados. Além disso, o defensor observou que as atividades das empresas de ônibus são de trabalhos lícitos e respeitam as normas estabelecidas pelas leis vigentes.

Em nota, a defesa Pandora negou que tenha sido mandante ou financiador do resgate deu preso. "Após perícias contábeis, declarações e inúmeras diligências, o Ministério Público requisitou o arquivamento do inquérito, o que foi homologado pela Justiça", diz o texto.

Pandora também nega que tenha feito delação. "Não conheço e nunca tive qualquer relação com as pessoas citadas na reportagem e, por isso, não houve qualquer referência minha a elas nos depoimentos que prestei na Polícia Civil."

Assassinado em Diadema

Pandora ficou preso 10 dias. As delações dele caíram como uma bomba. A Polícia Civil pediu a prisão de oito pessoas, mas a Justiça negou. Na lista constavam os nomes de Granada; José Antônio Guerino; um ex-secretário municipal de Transportes da capital e o diretor da garagem 2 da Cooper Pan.

Guerino foi assassinado em 26 de maio do ano passado com tiros de fuzil em um bar no Jardim Campanário, em Diadema. Dois encapuzados fugiram. Segundo a SSP (Secretaria Estadual da Segurança Pública), o inquérito que investigava a morte dele foi relatado sem chegar aos autores do crime.

Ele tinha 47 anos e era diretor da A-2 Transportes, empresa de ônibus da zona sul, e sócio da Cooperativa Líder de Diadema. O presidente dessas duas empresas é o mesmo empresário que dirigiu a garagem 2 da Cooper Pan e que teve o pedido de prisão negado pela Justiça em 2006.

O empresário tem ligações com um time de futebol na região do ABC e é irmão de um secretário municipal da capital paulista. Ele sempre negou envolvimento com o crime organizado e diz ser trabalhador, honesto e de conduta ilibada.

Granada, por sua vez, é acusado pelo MP-SP de ser o chefe da célula conhecida como "sintonia dos gravatas", o braço jurídico do PCC. Em janeiro de 2019, ele foi condenado a 30 anos de prisão por associação à organização criminosa. No mês seguinte, Granada e a liderança da facção presos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP) foram removidos para presídios federais.

Força-tarefa

As cooperativas de transporte surgiram por meio dos perueiros clandestinos e foram legalizadas na capital, através de licitações públicas, entres os anos de 2002 e 2003 na gestão da prefeita Marta Suplicy (PT). Em 2013 e 2014, na administração de Fernando Haddad (PT), as empresas passaram a ser S/A (Sociedade Anônima) também por processo licitatório.

Atualmente, ao menos três empresas de ônibus são investigadas em São Paulo por suposto envolvimento com o PCC. Duas delas, a Transunião e a UPBUS, ambas da zona leste da capital, foram alvo de operações da Polícia Civil neste mês.

O Denarc apurou que acionistas da UPBUs pertencem ao alto escalão do PCC, entre eles Décio Gouveia Luiz, 53, o Décio Português, e Silvio Luiz Ferreira, 44, o Cebola. Este último, de acordo com relatos de policiais civis, é dono de 56 ônibus da empresa.

Ontem, (29), o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) de Presidente Prudente, subordinado ao MP-SP, se reuniu com o delegado-geral da Polícia Civil, Osvaldo Nico Gonçalves.

Ambos integram a força-tarefa criada para investigar a participação do PCC nas empresas de ônibus de São Paulo. Também participaram da reunião delegados do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) e do Denarc.

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