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Juliana Dal Piva

Queiroz, investigado por morte: sobrevivente fala pela primeira vez

Fabrício Queiroz, subtenente da reserva da PM do Rio e ex-assessor de Flávio Bolsonaro - Reprodução/Youtube/SBT
Fabrício Queiroz, subtenente da reserva da PM do Rio e ex-assessor de Flávio Bolsonaro Imagem: Reprodução/Youtube/SBT
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

01/02/2021 04h00

Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), enfrentará ao longo de 2021 outras investigações criminais além do caso da "rachadinha", a devolução ilegal de salários na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em outubro do ano passado, ele foi denunciado ao Tribunal de Justiça fluminense junto com o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro por organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro. Mas o subtenente da reserva da PM do Rio também é investigado pela morte de Gênesis Conceição da Silva e pela tentativa de homicídio sofrida por Antônio Rabelo em decorrência de uma ação policial, na comunidade da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio.

O caso ocorreu em novembro de 2002 e é investigado pela 32ª Delegacia de Polícia. Desde então, diferentes delegados pediram três vezes o arquivamento do inquérito sem sequer tomar o depoimento do sobrevivente ao tiroteio. No fim do ano passado, a promotora Denise Pieri Pitta, da 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal-Núcleo Jacarepaguá e Madureira, exigiu o depoimento e outras providências. Para ela, há "circunstâncias anômalas" no procedimento.

O sobrevivente contou, em entrevista ao UOL, que após o crime recebeu a visita de um policial que tentou convencê-lo de que não tinha sido ferido pelos PMs.

Essa não é a única investigação de homicídio que envolve Fabrício Queiroz. No ano passado, o promotor Cláudio Calo apontou uma série de falhas em um outro inquérito que apura a morte do estudante Anderson Rosa de Souza, de 29 anos. Em 2003, o então tenente Adriano Magalhães da Nóbrega e Queiroz afirmaram que o caso foi um "homicídio proveniente de auto de resistência". O caso agora está na Delegacia de Acervo Cartorário aguardando o cumprimento de ações.

Procurado, o advogado de Fabrício Queiroz, Paulo Emílio Catta Preta, disse que ainda não representa o policial no inquérito. O policial militar cumpre prisão preventiva em seu apartamento na Taquara, Zona Oeste do Rio, desde julho do ano passado devido ao caso das "rachadinhas".

queiroz - Reprodução/GloboNews - Reprodução/GloboNews
Fabrício Queiroz cumpre prisão preventiva em sua casa na zona oeste do Rio
Imagem: Reprodução/GloboNews

Tiroteio em 2002

Nos autos, obtidos pelo UOL, a versão dos fatos que existe até hoje é essencialmente a contada por Queiroz, então sargento do 18º Batalhão. Depois do tiroteio, ele prestou depoimento e disse que "estava em patrulhamento de rotina com os demais policiais militares quando diversos elementos armados passaram a efetuar disparos contra a guarnição".

Queiroz afirmou que os policiais reagiram e os "meliantes" correram para o interior da comunidade e a perseguição continuou dentro da comunidade. Em certo ponto, ele encontrou um desses "elementos caído, baleado, portando a arma de fogo". Em seguida, segundo Queiroz, surgiu outro homem, também baleado em uma das pernas e dizendo ter sido atingido por um dos disparos dos criminosos.

A história é bastante diferente da contada pelo confeiteiro Antônio Rabelo ao UOL. Ele disse que, por convite de uma amiga que morava na comunidade, estava indo para um baile funk. Pouco antes de chegarem no local do baile, ele e os amigos se viram cercados por uma troca de tiros entre policiais e o que ele acredita ser um grupo de traficantes.

"Foi a primeira vez que eu fui na Cidade de Deus, por conta do baile. Mas nem cheguei a ir no baile. Tava indo quando fui atingido", contou Rabelo. "Começaram a dar tiro atrás da gente e começamos a correr. Só que fomos na direção onde estava um comboio de policiais. Eles estavam numa rua esperando quem passasse, entendeu? Nesse momento é que aconteceu tudo", disse. "Foi tipo uma emboscada que fizeram", completou.

Rabelo diz que viu um homem bastante ferido ser colocado dentro de uma viatura, mas não o conhecia. "Ele tava muito ensanguentado, mas estava vivo ainda. Botaram na viatura para levar no hospital. Não conheço", disse. "Não foi só eu e esse rapaz que foi atingido. Teve moradores que foram atingidos", contou.

O confeiteiro revelou que foi levado pelos policiais para o Hospital Lourenço Jorge, na zona oeste do Rio. Mais tarde foi transferido para o Hospital Miguel Couto. Ele ficou internado por cerca de duas semanas, mas sofre com as sequelas das lesões até hoje. Os tiros pegaram em uma das pernas, joelho e no pé. A pior lesão foi no joelho que o impede de se movimentar normalmente. Rabelo contou que sofre para trabalhar com recorrentes inflamações e dor.

Ao pedir o aprofundamento das investigações, o MP destacou "algumas circunstâncias anômalas que ocorreram no decorrer das investigações". Foi apontado, por exemplo, que a primeira intimação para Antônio Rabello só ocorreu 10 anos após os fatos e mesmo assim ele ainda não foi ouvido.

Antônio Rabelo disse que algum tempo depois do tiroteio recebeu em casa uma visita de um policial cujo nome não se recorda. "Ele perguntou a dinâmica do que tinha acontecido, ele quis fazer com que eu tivesse certeza que não foram os PMs, entendeu? Falei que não vi de onde veio. Tinham pessoas que vinham atrás de mim correndo e pessoas que vinham dos lados também correndo e atrás dessas pessoas tinham PMs também e eu me encontrei com esse comboio de policiais", afirmou. "Eu fiquei com medo, nem ação contra o estado eu movi. Carreguei essa sequela até hoje", contou.

Além disso, o pai de Gênesis da Silva, mesmo tendo reconhecido o corpo do filho em 2002, só foi ouvido 10 anos depois e outros dois policiais também prestaram depoimento 18 anos após o caso e informaram não se recordar mais da ocorrência. Os policiais alegaram que Gênesis era traficante, mas ele não tinha nenhuma anotação criminal.

O documento do MP descreve ainda como problema a "ausência de informação sobre a extração, ou não, de projétil do corpo da vítima sobrevivente para a realização do confronto balístico com as armas dos policiais e a apreendida com Genesis". No ofício para a delegacia, a promotoria descreveu que "passados 18 anos dos fatos não houve, ainda, apreensão e perícia nas armas dos policiais militares envolvidos". Outra falha da investigação é que não foi juntada o laudo de exame pericial do local".