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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Distanciamento social é uma utopia", diz senador governista crítico da OMS

Senador Carlos Portinho (PL-RJ) - Agência Senado
Senador Carlos Portinho (PL-RJ) Imagem: Agência Senado
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

07/03/2021 04h00

O advogado Carlos Portinho (PL-RJ) assumiu uma cadeira no Senado em novembro do ano passado. Ele substitui o senador Arolde de Oliveira, que morreu vítima de Covid-19 em outubro. Antes do senado, Portinho foi secretário de Habitação de Eduardo Paes, na prefeitura do Rio de Janeiro, e comandou a Secretaria estadual de Ambiente, no governo Luiz Fernando Pezão.

Novo senador fluminense, ele também integra a base do governo Bolsonaro, como Arolde. Em entrevista à coluna, admitiu que o governo federal errou na comunicação da pandemia, mas acha que outras lideranças também cometeram "grandes equívocos". Para o senador, o que devia ter sido defendido era um "distanciamento físico" entre as pessoas e faltou liderança até para a OMS (Organização Mundial da Saúde).

O senhor se tornou senador por causa da morte de Arolde de Oliveira, vítima da covid-19. Somos criticados no mundo todo pelas falhas no combate à pandemia. Faltou coordenação dos governos?

Vivemos uma pandemia mundial. Não podemos esquecer disso. Algo absolutamente excepcional, que o mundo nunca viveu e a nossa economia, já bem debilitada de alguns anos, vem sentindo. Mas há um problema de saúde muito grave, as pessoas precisam entender. Há um grave erro de comunicação. Eu não vou nem entrar no mérito do que pensa o presidente, mas é um dever comunicar corretamente para que as pessoas entendam. Sempre defendi que aqueles que podem, devem ficar em casa. Minha mãe está guardada há um ano e eu, pela minha função pública, preciso trabalhar. Sei que eu estou em risco. Sei que o entregador de comida está em risco. O que aconteceu aqui no Rio de Janeiro no réveillon, das festas, é uma consequência grave de um erro de comunicação.

O senhor disse que não quer entrar no mérito do que pensa o presidente, mas o presidente possui um papel importante. O erro é de quem?

A comunicação institucional. Como integrante do Legislativo, é o que me preocupa. É como eu disse: acho que há equívocos, grandes equívocos. A comunicação era o primeiro remédio contra a covid. Sempre defendi que a gente deveria ter começado a ensinar lá no início, há um ano atrás, um distanciamento físico. O distanciamento social é uma utopia. O que a gente não conseguiu comunicar, nenhum governo, foi o distanciamento físico. O resultado disso são praias, festas, bares e ruas lotadas. Mas a atividade de comércio poderia ter sido poupada dessa maneira com distanciamento físico.

Quando o senhor fala de erros da comunicação institucional o senhor está falando do Ministério da Saúde?

Estou falando de todos os governos. A gente pode dar vários exemplos, não estou querendo atribuir responsabilidade a um ou a outro. Todos se comunicaram mal. Não vimos uma campanha de governo estadual, municipal ou federal a respeito do distanciamento físico necessário ou do calendário de vacina.

Mas no ano passado foi clara a crise entre governadores e o presidente por causa do isolamento social. Ministros saíram do governo. O senhor falou em equívocos, não faltou coordenação a partir do ministério?

Falta liderança, mas de todos. Mesmo aqueles governadores que defenderam o lockdown não conseguem ter liderança sobre a sua própria população. Depois de um ano, ficou mais difícil a comunicação e esse exercício de liderança porque faltou, de modo geral, para todos os governantes. A gente precisa de lideranças adaptativas, o que significa isso? Lideranças que consigam entender o momento que a gente está vivendo, liderar a população para se adaptar. No início da pandemia, faltava máscara, álcool gel, era difícil, mas as pessoas acabaram adaptando suas rotinas e fizeram isso por elas mesmas. Elas não tiveram uma liderança capaz de orientar elas mesmas e a gente sofre os reflexos disso. O comércio formal, os quiosques na praia, muitos mantiveram as medidas de isolamento separando mesas e tentando o distanciamento físico e eles hoje não compreendem a medida que foi tomada, por exemplo, pela prefeitura que colocou todo mundo no mesmo saco. Não estou falando só do dono do quiosque na praia, mas do garçom. Os próprios entregadores que foram heróis durante todo esse momento. Recebi aqui do sindicato deles para que, pelo amor de Deus, se libere pelo menos a entrega de comida depois das 23 horas porque pelo decreto até isso está proibido. Você vê que é falta de liderança. As pessoas não estão compreendendo as orientações.

E sobre a questão das vacinas, o Ministério da Saúde não demorou demais fazer as compras anunciadas na última semana com a Pfizer e Janssen?

Vou dividir a resposta em duas. Quando eu vejo essa falta de liderança, vejo essa ausência na própria OMS. A própria OMS poderia ter conduzido melhor, de forma mais orientadora, certificando o que é verdadeiro, o que é falso, cloroquina, ivermectina. Acaba que dois mil médicos assinam dizendo que ivermectina é medida de prevenção, outros dizem que não. A gente quer saber o que a OMS diz.

Mas a OMS alerta desde julho do ano passado sobre a falta de eficácia da cloroquina.

Acho que a falta de liderança do órgão mundial de saúde foi muito grande. Então essa primeira questão, com relação às vacinas, existe uma questão legal que a gente deve se debruçar. A gente tem uma agência que é responsável pela aprovação dessas vacinas. Se o tempo de aprovação é curto ou longo demais, é uma coisa que a gente deveria enfrentar. Mas pessoalmente eu acredito que a Anvisa deveria liderar o processo de aprovação das vacinas. Como ela não conseguiu dar uma resposta a tempo, tanto da expectativa e da ansiedade, o próprio Senado passou a admitir vários projetos de lei. A gente vem discutindo tanto a possibilidade de compra de vacina, ainda em caráter provisório de aprovação e, na semana passada, um projeto de lei para permitir que empresas privadas comprem vacinas para poder doar metade para o SUS e metade em doação para seus funcionários e cidades. A gente poderia estar organizando consórcio de empresas privadas para fazer essa distribuição. O Senado está aprovando essa lei, tem que ser sancionado rápido e a iniciativa privada poderá começar a se organizar para comprar essas vacinas e fazer essas doações.

O senhor levantou a possibilidade de empresas participarem nas compras. Mas há dificuldade mundial nessas aquisições e, lá fora, os laboratórios preferem justamente vender para os governos. E aí volto a perguntar, o Ministério da Saúde não demorou nessas compras? O senhor tem dificuldades para criticar o governo Bolsonaro?

Não tenho dificuldade para criticar o governo. Tanto que fiz aqui a crítica. Para mim, o principal, o maior erro é a comunicação e toda a imprensa noticia isso diariamente e o próprio governo não reconhece. Mas na sua pergunta você dá uma resposta. Há uma dificuldade mundial. A gente vê países como a França com dificuldades. Existem várias nuances nessa questão, mas há uma dificuldade mundial de produção e venda de vacinas, isso é um fato. Agora, o Brasil poderia ter liderado esse processo de modo mais ágil? Sim, poderia. A vacina da Rússia poderia estar sendo distribuída aqui no Brasil há mais tempo. É uma vacina que tem uma eficácia comprovada. A da Johnson, que foi aprovada nos EUA, podia ter sido aprovada mais rapidamente aqui? Sim. São falhas que vão prejudicar a distribuição e a chegada dessa vacina na população, mas eu, particularmente, acredito. Sou otimista. Acredito que em abril vamos ter uma oferta maior de vacinas.

O Senado aprovou essa semana a PEC que permite gastos para pagamento do auxílio. O governo está falando em pagar parcelas de R$ 200 e alguns senadores estão defendendo R$ 600. Como o senhor vê?

A PEC abre um espaço fiscal para que seja possível um pagamento do auxílio emergencial sem perder de vista a necessidade de uma responsabilidade. No caso, uma responsabilidade fiscal. Por isso, inclusive, houve um complemento ao relatório fixando um valor de R$ 44 bilhões para um limite, porque senão seria um cheque em branco para o governo federal. Foi um limite discutido com o governo do que ele acha possível e a expectativa é de que seja um valor de R$ 250, mas também não se pretendeu fixar um valor porque, se o governo encontrar mais espaço, é possível que ele chegue num valor maior. Acho que é uma decisão do governo e não do legislativo.

No ano passado, o governo queria pagar R$ 200 e foi o legislativo que pressionou pelos R$ 600.

Tem duas questões. O valor de R$ 600 reais, embora tenha sido uma iniciativa do legislativo, também foi em cima de dados discutidos com o governo federal. Segunda questão, se talvez o auxílio não tivesse sido de R$ 600, mas de R$ 500 ou R$ 400, a gente poderia estar discutindo um auxílio maior agora, mais equilibrado ou até no mesmo patamar. Isso é conta. A gente não pode perder de vista a responsabilidade.