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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

RJ: Secretaria acha remédio vencido em hospital para covid nunca inaugurado

Hospital de campanha que iria funcionar no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. - Reprodução/TV Globo
Hospital de campanha que iria funcionar no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Imagem: Reprodução/TV Globo
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

06/04/2021 14h46

A Seap (Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro) enviou um ofício para a Secretaria de Saúde do Estado na segunda-feira (5) informando que localizou diversos remédios de uso hospitalar, alguns vencidos, que tinham sido comprados para tratar pacientes com covid-19 no que seria o hospital de campanha que iria funcionar no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

A unidade que seria destinada para tratamento de presos com o novo coronavírus, porém, nunca foi inaugurada. No documento, obtido com exclusividade pela coluna, foi apresentada uma lista com 12 medicamentos diferentes que inclui analgésicos, antibióticos e outros remédios de uso hospitalar diário.

Assinado pelo secretário da Seap, Raphael Montenegro, o ofício informa as dosagens e a validade. Procurado pela coluna, Montenegro disse, por nota, que determinou abertura de um procedimento administrativo para apurar "responsabilidades". A secretaria ainda não sabe informar a origem da medicação.

No documento, a coluna verificou que 38 seringas com Clexane venceram em fevereiro deste ano. O medicamento é um anticoagulante muito utilizado nos hospitais. Profissionais de saúde ouvidos pela coluna explicaram que pacientes internados com covid-19 chegam a fazer uso diário do medicamento.

Além disso, o documento da Seap mostra que 15 ampolas de Hemitartarato de Norepinefrina possuem como prazo de validade o mês de abril deste ano. A medicação ajuda a controlar a pressão arterial dos pacientes.

Montenegro informou ainda a Carlos Alberto Chaves, secretário de Saúde, que encontrou as medicações no processo de desmontagem da estrutura do que seria o hospital. "Comunico a V.Exa. que no processo de desmontagem da estrutura do Hospital de Campanha projetado, ainda em março de 2020, para ser construído no Instituto Penal Santo Expedito, cuja gestão deveria ter sido operada por Organização Social que além de não ter finalizado a construção, jamais prestou serviços ao sistema prisional do Estado do Rio de Janeiro, foi possível identificar a remessa de medicamento", informa o secretário, no documento.

Os atuais secretários de Saúde e de Administração Penitenciária não estavam à frente das pastas na época da contratação do hospital. Chaves assumiu em setembro do ano passado e Montenegro em fevereiro deste ano. Na ocasião do projeto do hospital, o secretário da Seap era Alexandre Azevedo de Jesus e o de Saúde era Edmar Santos. Processado pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por desvios na pandemia, ele se tornou delator do escândalo de corrupção que levou ao afastamento do governador Wilson Witzel.

No documento, a Seap disse ainda que coloca a medicação à disposição das unidades de saúde para que façam a distribuição de acordo com a necessidade. "Dou ciência do acervo de medicamentos acima indicado, que, desde logo, cumprindo com o dever de responsabilidade social, fica à disposição de V.Exa. para imediato emprego nas unidades de saúde desta Secretaria de Estado", finaliza o secretário no ofício.

ofício - Reprodução - Reprodução
Ofício da Seap informando a Secretaria de Saúde do Estado a descoberta de remédios vencidos
Imagem: Reprodução

Problemas na contratação

No ano passado, uma reportagem do RJ 2, da TV Globo, mostrou que existiam várias inconsistências no processo de contratação do hospital, que nunca funcionou como o planejado originalmente.

Em março de 2020, quando a unidade foi pensada, a Seap pediu apoio do Comando Conjunto do Leste para a construção. O governo estadual ficou responsável por comprar o material necessário para erguer o hospital e os militares fariam a obra. A ideia original era proporcionar 60 leitos de alta complexidade.

Dois meses depois, em maio, a Seap chegou a autorizar o gasto de R$ 214,9 mil com uma empresa chamada Vivaart Logística Empresarial para o fornecimento de insumos necessários à instalação do hospital. A TV Globo esteve na sede da empresa, em junho do ano passado, em Cabo Frio e descobriu que ela não funcionava mais no local. Um escritório de engenharia, sem qualquer relação com a empresa, ocupa o endereço.

No último boletim disponível, com data de 1º de abril, a Seap informou que 505 internos, dos cerca de 50 mil do sistema prisional fluminense, testaram positivo para a covid-19. Ao todo, foram registrados 16 óbitos de internos.

A coluna procurou o Comando Militar do Leste e o ex-secretário Alexandre Azevedo, mas ainda não obteve resposta. O ex-secretário Edmar Santos afirmou que não vai se manifestar.

Leia abaixo a íntegra da nota da Seap:

"A Secretaria de Estado de Administração Penitenciária esclarece que o material foi encontrado na estrutura de um Hospital de Campanha que não chegou a ser montado em uma unidade próxima ao Complexo de Gericinó.

O secretário Raphael Montenegro determinou o desmonte do esqueleto do Hospital, onde foi encontrado o material que seria de responsabilidade da OS escolhida pela SES para administrar o local.

Por este motivo, foi feito ofício disponibilizando o material à Secretaria de Estado de Saúde, além da determinação, imediata, para abertura de procedimento de apuração de responsabilidades".