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Juliana Dal Piva

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com bares liberados, Chapecó quadruplicou mortes; exemplo do que não fazer

Entrada do Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó (SC), onde vídeos não foram gravados pelo prefeito - Hygino Vasconcellos/UOL
Entrada do Hospital Regional do Oeste (HRO), em Chapecó (SC), onde vídeos não foram gravados pelo prefeito Imagem: Hygino Vasconcellos/UOL
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

07/04/2021 10h12

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chega a Chapecó, cidade do oeste de Santa Catarina nesta quarta-feira (7) e quer usar a cidade como "exemplo" de seu argumento em defesa do "tratamento precoce", o kit de remédios que diferentes estudos científicos pelo mundo já mostraram que não possui eficácia para a covid-19. Mas o exemplo que Chapecó possui para o Brasil é de como a flexibilização total de atividades pode ser fatal.

A iniciativa de Bolsonaro ocorre porque o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, gravou um vídeo nos últimos dias dizendo que "tudo foi feito" e que foi permitido aos médicos fazer as "todas escolhas", inclusive, do tal "tratamento precoce". O vídeo ficou conhecido no Brasil depois de postado pelo presidente.

Rodrigues gravou um vídeo no "Centro Avançado de Atendimento covid-19" mostrando leitos vazios e celebrando uma suposta melhora na pandemia na cidade.

Não foi explicado para quem não conhece a cidade que aquele era apenas um espaço montado às pressas entre fevereiro e março deste ano, quando a prefeitura perdeu todo o controle sobre a covid-19 em Chapecó. O Hospital Regional, o maior dos dois públicos que a cidade possui, segue lotado.

Lá, no hospital, nenhum vídeo foi gravado nos últimos dias e nem o prefeito falou dos números que mostram que, sob seu comando, Chapecó teve a pior gestão da pandemia desde março de 2020.

Chapecó, como muitas cidades do Brasil, foi enfrentando a doença como pôde. Teve relativo sucesso no início do ano passado. A primeira morte por covid-19 foi registrada apenas em 18 de maio - quase dois meses depois dos primeiros casos no Brasil.

Rodrigues venceu a eleição no ano passado e tomou posse em janeiro deste ano. O boletim epidemiológico da cidade registrava 123 mortos até 1º de janeiro de 2021. Um número contabilizado desde março de 2020.

Já em 5 de abril deste ano, a cidade contabiliza 537 mortos. Um total de 414 pessoas morreram de covid-19 apenas nesse intervalo de tempo de pouco mais de três meses.

Qual foi a principal mudança entre o fim de dezembro e o início de janeiro de 2021? Diferentes setores faziam pressão há meses por mais flexibilização das atividades. Em 7 de janeiro, a prefeitura sob gestão de Rodrigues cedeu.

Um decreto permitiu o funcionamento de bares e restaurantes sem restrição de horário. Até então, os estabelecimentos só podiam funcionar até a meia-noite. Chegou a ser autorizada a apresentação de música ao vivo, desde que respeitado o distanciamento social, uso de máscara, álcool gel e o limite de quatro músicos. Também foram liberados casamentos, aniversários e formaturas.

As consequências não demoraram para aparecer.

Além de quadruplicar as mortes, Chapecó ainda tem 193 pessoas internadas, das quais 129 na UTI do Hospital Regional. Em janeiro deste ano, esse número era de 69 internados, com 40 em UTI.

Em fevereiro, Rodrigues passou a ter que retomar as restrições e chegou a ter que fazer um lockdown parcial. Só depois disso, o volume de novas infecções passou a diminuir. Mas as famílias das 414 pessoas que perderam seus entes queridos nesse período vão carregar para sempre a memória desses dias.

O exemplo de Chapecó deve ser levado em conta para não ser esquecido sobre o que acontece quando a economia se sobrepõe sem consequências sobre a vida das pessoas.

No sábado (10), três dias depois da publicação, a prefeitura de Chapecó enviou uma nota para a coluna e segue na íntegra a seguir:

"A Administração Municipal de Chapecó esclarece que o aumento dos casos de contágio no município tem relação com o aparecimento da variante P1 da Covid. Houve um alto contágio, chegando a um pico de 847 contaminados no dia 16 de fevereiro, e 5,5 mil ativos no dia 4 de março. No dia 5 de março havia 351 internados, sendo 252 em espaços públicos.

No Boletim Epidemiológico deste sábado são 166 internados, sendo 136 em espaços públicos. O número de contaminados caiu para 29 no dia primeiro de abril. No Hospital Regional do Oeste, que atende toda a região Oeste e que durante mais de dois meses esteve com 100% de ocupação de UTI, além de dezenas de pacientes em outros setores esperando leito, há 93 pacientes de UTI para 103 leitos. Lembrando que em janeiro havia somente 35 leitos de UTI e 26 de enfermaria. A Administração Municipal em conjunto com a direção do HRO e Governo do Estado contribuiu para triplicar os leitos de UTI. A Enfermaria dobrou, passando para 55 leitos. Além disso foi aberto o Centro Avançado de Atendimento Covid, com 75 leitos de enfermaria e 20 num Unidade de Tratamento Semi-Intensivo.

A gravação do vídeo citado no artigo teve como intenção mostrar o espaço onde mais de 200 pessoas foram atendidas, onde infelizmente ocorreram 19 óbitos, mas 85 tiveram toda a assistência médica até conseguirem uma vaga em hospital, além de proporcionar 102 altas. A Administração contratou pelo menos 150 profissionais em três meses para ampliar o atendimento, o que incluiu a abertura de um terceiro ambulatório. Muitos chapecoenses perderam a vida nesse período. Mas também muitas vidas foram salvas".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL