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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Advogado de Jairinho encontrou com ex-mulher que acusa vereador de agressão

Dr. Jairinho foi preso temporariamente no Rio de Janeiro por suspeita de participação no assassinato do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos - Vitor Brugger/Estadão Conteúdo
Dr. Jairinho foi preso temporariamente no Rio de Janeiro por suspeita de participação no assassinato do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos Imagem: Vitor Brugger/Estadão Conteúdo
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

08/04/2021 18h21

André França, advogado que representa tanto o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, como a professora Monique Medeiros da Costa e Silva, esteve na tarde da quarta-feira (7) em um encontro em seu escritório com a nutricionista Ana Carolina Ferreira Netto. Ela é ex-mulher do parlamentar e registrou boletim de ocorrência contra ele por um episódio de violência doméstica em 2013. Ana Carolina foi intimada para depor nesta sexta-feira (9) como testemunha no caso da morte do menino Henry. A reunião entre o defensor e Ana Carolina ocorreu ontem na parte da tarde, às 14 horas.

André França afirmou à coluna que foi Ana Carolina quem pediu o encontro. "Ela solicitou a mim. Eu ouvi as demandas e as preocupações dela e o que ela queria. Orientei que ela deveria ter um advogado que ela poderia escolher e, se ela não quisesse escolher, eu escolheria um. Ela disse que escolheria. Ela me procurou preocupada com a exposição dos filhos, queria saber em que pé estava o caso", disse França. A coluna tenta contato com Ana Carolina.

O vereador e Monique Medeiros da Costa e Silva foram presos hoje por suspeita de atrapalhar as investigações que apuram as circunstâncias da morte de Henry há um mês. A Polícia Civil e o Ministério Público encontraram mensagens que mostram que o menino foi agredido por Jairinho em fevereiro deste ano. Uma autópsia do corpo de Henry mostrou que ele morreu com múltiplas lesões e teve o fígado dilacerado.

Pessoas próximas à ex-mulher do vereador relataram à coluna que a nutricionista está bastante abalada desde que o caso veio à tona e foram reveladas as agressões sofridas por ela anos atrás. "Ela só chora há semanas", contou uma pessoa conhecida, que pediu anonimato. "Está transtornada", continuou. Ana Carolina estaria preocupada com a exposição dos filhos dela com o vereador devido ao caso.

Testemunhas no escritório

Na decisão que determinou a prisão, a juíza Elizabeth Louro descreveu que o caso, que apura a morte de Henry, enfrenta riscos para a coleta de provas. A magistrada relatou que foi verificado ao longo da apuração do crime que diversas testemunhas, ligadas ao casal, foram no escritório do advogado de defesa do casal antes de comparecer à delegacia para prestar esclarecimentos sobre o caso.

"As mesmas testemunhas, ligadas aos investigados, que prestaram depoimentos contraditórios, antes de se dirigirem a unidade policial atendendo à convocação da autoridade para deporem, foram levadas ao escritório do patrono de ambos — em procedimento tão inusitado quanto antiético — previamente orientadas a assim agirem pelos investigados, segundo seus próprios depoimentos", escreveu a magistrada.

Em relação à menção na decisão, o advogado André França disse à coluna que a OAB regulamentou a investigação defensiva e, publicamente, solicitou que, quem tivesse informações para ajudar a esclarecer o caso, o procurasse. Ele ressaltou ainda que duas testemunhas que relataram se encontrar com ele antes dos depoimentos o fizeram antes de serem intimadas. França disse ainda que nos depoimentos ficou descrito, por elas próprias, que ele as orientou a "dizer a verdade".

Ana Carolina relatou na delegacia, em janeiro de 2014, que Jairinho a agrediu várias vezes. Em 29 de dezembro de 2013, o casal começou a discutir na garagem do prédio porque ela viu ele falando com outra mulher no telefone. Durante a briga, ele a segurou pelo braço e chegou a arrastá-la até a cozinha. Depois passou a chutá-la por diversas vezes, em meio a diversos xingamentos.

Ela chegou a fazer um exame de corpo de delito no dia 3 de janeiro de 2014, cinco dias depois da agressão. Na ocasião, ficou registrado que ela chegou a ser atendida no Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, e os exames verificaram quatro equimoses ou hematomas nas pernas e nos joelhos. Além disso, foi verificado um hematoma no braço.

Depois disso, Ana Carolina compareceu ao MP e solicitou a retirada das acusações e acabou arquivado. No entanto, segundo a legislação, casos de violência contra mulher devem prosseguir mesmo sem o aval da vítima.