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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Em livro, Cunha admite que tentou fazer Dilma não reconduzir Janot na PGR

Eduardo Cunha - Tréplica Cristiano Mariz/VEJA
Eduardo Cunha Imagem: Tréplica Cristiano Mariz/VEJA
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

16/04/2021 04h00

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (MDB) admitiu que, em junho de 2015, pediu ao então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que a ex-presidente Dilma Rousseff não reconduzisse Rodrigo Janot ao cargo de procurador-geral da República. A confissão consta de um dos capítulos do livro "Tchau, Querida — O Diário do Impeachment", obtido com exclusividade pela coluna.

Cunha escreveu o livro com a ajuda da filha Danielle Cunha, e a obra, de 797 páginas, será lançada neste sábado (17) pela editora Matrix. A data marca também os cinco anos da sessão, comandada pelo ex-parlamentar, que resultou na abertura do processo de impeachment contra Dilma.

No relato do capítulo 17, Cunha narra um jantar oferecido por Michel Temer (MDB), à época vice-presidente da República. O evento ocorreu no Palácio do Jaburu no dia 16 de junho de 2015 e, segundo Cunha, contou com diversos ministros de tribunais superiores. Naqueles dias, em meio ao avanço das investigações da Operação Lava Jato, o então presidente da Câmara acreditava que Dilma, Cardozo e Janot formavam uma espécie de complô contra ele.

"Compareci e fiquei ao lado de José Eduardo Cardozo na mesa principal. Ele tentou se desculpar comigo, argumentando que o governo não teria outra saída a não ser reconduzir Janot para mais um mandato na PGR, já que iria obedecer à lista tríplice", escreveu Cunha.

Na sequência, o deputado cassado sugere que o governo entreviste os candidatos da lista tríplice antes de escolher e faça uma opção "não necessariamente" por Janot.

cardozo - Bruno Santos - 14.ago.2017/Folhapress - Bruno Santos - 14.ago.2017/Folhapress
José Eduardo Cardozo, ex-ministro do governo Dilma
Imagem: Bruno Santos - 14.ago.2017/Folhapress

"Fiz minha contestação: o governo ao menos poderia escolher um dos três da lista e não necessariamente Janot. Falei que ele deveria entrevistar todos os candidatos e ouvir suas posições. Eu havia ouvido do meu advogado, Antonio Fernando de Souza, que um dos postulantes era excelente quadro".

No livro, Cunha, em seguida, acusa o ex-ministro de ter vazado na imprensa a conversa: "Eu não tinha interesse nem nessa candidatura, e nem em qualquer outra, mas o teste com Cardozo serviu para tirar duas conclusões: que Janot seria reconduzido de qualquer forma; e que Cardozo era o responsável por tudo contra mim, oriundo de Janot".

O ex-procurador-geral já era favorito, mas a votação da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) só iria ocorrer em agosto. Ele recebeu 799 votos. Os outros dois mais votados pelos colegas foram os subprocuradores-gerais Mario Bonsaglia, com 462 votos, e Raquel Dodge, com 402.

Cunha relata que, alguns dias depois do jantar, o ex-ministro Henrique Alves tentou fazer uma aproximação entre Janot e ele, que discutiam publicamente. Ainda de acordo com ex-deputado, ele se encontrou com Alves e o procurador Peterson Pereira, que cuidava da assessoria institucional da PGR.

Na ocasião, foi levantada a possibilidade de um encontro entre Cunha e Janot, mas o ex-procurador exigia que fosse algo formal e na PGR. Cunha queria um "local neutro" e acreditou ser uma "armadilha". Por fim, o encontro, segundo ele, nunca ocorreu.

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Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Em uma passagem mais adiante na obra, Cunha faz referência ao momento em que Janot, já escolhido, passou pela sabatina no Senado. Era o dia 26 de agosto de 2015. Cunha, inconformado com a escolha, opina no livro que a recondução de Janot "certamente foi um dos grandes erros de Dilma e do PT". E disparou: "Janot fez muito mal ao país, ajudou a quebrar muitas empresas e foi um dos responsáveis pela queda de Dilma, a quem achava que estava servindo."

Procurado, José Eduardo Cardozo falou à coluna que não se recordava do episódio. "Mas pode ter ocorrido. Ele não escondia de ninguém que queria afastar pessoas que ele considerava que o perseguiam. Ele também pedia a minha exoneração e a do diretor geral da Polícia Federal, à época, Leandro Daiello Coimbra", afirmou Cardozo.

Cerca de um ano depois do jantar descrito por Cunha, em maio de 2016, ele foi afastado do mandato e, meses depois, foi cassado e preso pela Operação Lava Jato por determinação do ex-juiz Sergio Moro. Ele foi condenado e está em prisão domiciliar devido à pandemia.