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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com Queiroz escondido em Atibaia, Márcia Aguiar chamou Bolsonaro de "01"

O policial militar Fabrício Queiroz, o presidente Jair Bolsonaro, e o advogado Frederick Wassef -
O policial militar Fabrício Queiroz, o presidente Jair Bolsonaro, e o advogado Frederick Wassef
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

05/07/2021 04h00

Em troca de mensagens, a mulher e a filha de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar e Nathália Queiroz, se referem ao presidente Jair Bolsonaro como "01". Os áudios são de outubro de 2019, período em que o policial militar reformado ficou escondido na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederick Wassef, em Atibaia, no interior de São Paulo.

Márcia afirmou que "o 01, o Jair, não vai deixar", em referência a um possível retorno de Queiroz para seu antigo cargo de assessor de Flávio Bolsonaro. A íntegra dos áudios, com trechos inéditos até agora, foi obtida pela coluna com exclusividade. Eles podem ser ouvidos no vídeo abaixo.

A troca de mensagens entre Márcia e Nathália ocorreu após reportagem da colunista Juliana Dal Piva, publicada no jornal O Globo, revelar, que Queiroz seguia fazendo articulações políticas apesar das investigações no MP-RJ. Na ocasião, foi publicada uma gravação em áudio na qual o policial militar dizia que existiam 500 cargos no Congresso Nacional que poderiam ser ocupados por indicações políticas, sem que a família Bolsonaro aparecesse vinculada às nomeações.

Com acesso à íntegra dos áudios da investigação sobre Flávio, a coluna descobriu trechos inéditos dessa conversa. O material exclusivo está no podcast UOL Investiga: "A vida secreta de Jair", que estreará amanhã no UOL e em todas as plataformas de podcast.

A troca de mensagens entre Márcia e Nathália ocorreu em 24 de outubro de 2019. Em áudio para a madrasta, Nathália reclamou de Queiroz e o chamou de "burro" por continuar fazendo as articulações. Márcia desabafou sobre a situação e citou o presidente Jair Bolsonaro.

"É chato também, concordo. É que ainda não caiu a ficha dele que agora voltar para a política, voltar para o que ele fazia, esquece. Bota anos para ele voltar. Até porque o 01, o Jair, não vai deixar. Tá entendendo? Não pelo Flávio, mas enfim não caiu essa ficha não. Fazer o quê? Eu tenho que estar do lado dele", afirmou Márcia, em trecho exclusivo.

A mulher de Queiroz ainda comparou a situação do ex-assessor de Flávio, escondido naquela época na casa de Wassef em Atibaia, com a de um preso: "Essa vida, a gente não tem que confiar em ninguém. Se bobear, nem na própria família. Ainda mais num caso desse daí. Ele [Queiroz] fala da política como se tivesse lá dentro trabalhando e resolvendo. Um exemplo que eu tenho, que parece. Parece aquele bandido que tá preso dando ordens aqui fora. Resolvendo tudo."

Ao ouvir a mensagem, Nathália Queiroz seguiu reclamando da situação e do pai para a madrasta. Ela disse ainda que o "01" iria cobrar Queiroz pela situação. "Ai Márcia, é foda. é foda. Quando tá tudo quietinho para piorar as coisas, vem a bomba vindo do meu pai. O advogado, o 01, todo mundo vai comer o cu dele. E ele ainda vai achar normal. Você conhece meu pai. Vai falar: 'não falei nada demais'. Sempre acha que não é nada demais".

JAIR BOLSONARO -  Marcos Corrêa/PR  -  Marcos Corrêa/PR
Jair Bolsonaro, presidente da República
Imagem: Marcos Corrêa/PR

Bolsonaro nega contato com Queiroz

O presidente nega ter tido conversas com o antigo amigo desde que surgiu o escândalo das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj, em dezembro de 2018. Naquela altura, Flávio já tinha sido eleito senador e concluía o mandato de deputado estadual.

Até a descoberta dessa mensagem de Márcia, o que se sabia publicamente era que o presidente tinha costume de chamar os filhos por números que representam a ordem de nascimento deles: Flávio (01), Carlos (02), Eduardo (03) e Jair Renan (04). No Exército, esse costume chama-se "enumerar".

Ainda na troca de mensagens de celular, Nathália disse para a madrasta que não aguentava mais ver o pai "falando negócio de vaga". "Não consigo ter pena mais. Antes eu tinha. Agora não consigo, porque isso daí é toda hora que eu vejo, é ele falando de política, é ele falando negócio de vaga, é não sei mais o quê. No aniversário dele foi isso. Quando eu encontro com ele, toda vez é isso. Então, ele não sossega. Parece que não aprendeu", afirmou Nathália em um áudio para Márcia.

Procurada, a defesa de Márcia Aguiar não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a menção ao presidente.

queiroz preso - Reprodução/Band - Reprodução/Band
Fabrício Queiroz foi preso em Atibaia (SP) em casa que pertence ao advogado Frederick Wassef, em junho de 2018
Imagem: Reprodução/Band

Operação Anjo

Todos os áudios citados nesta coluna integram os autos da investigação do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) sobre o esquema da rachadinha no gabinete do senador Flávio Bolsonaro.

Parte das mensagens foi revelada na "Operação Anjo", em junho do ano passado, após os promotores pedirem a prisão de Queiroz e Márcia. As mensagens estavam nos celulares apreendidos com a família de Queiroz, após determinação judicial, em dezembro de 2019. O trecho que cita o presidente não tinha sido descrito pelos promotores nos autos.

Em outubro do ano passado, Queiroz foi denunciado junto com o senador e outras 15 pessoas por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O MP-RJ apontou que o policial militar era o operador de um esquema que desviou, pelo menos, R$ 6 milhões da Alerj. Desse valor, mais de R$ 2 milhões passaram pela conta bancária de Queiroz, e são oriundos de repasses feitos por outros ex-assessores do filho mais velho do presidente.

Queiroz foi colocado em liberdade pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) em março deste ano. Ele e a mulher tiveram a prisão decretada pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, em junho do ano passado, durante as investigações sobre desvio de salários no antigo gabinete de Flávio na Alerj. Depois de passar meses em local desconhecido, Queiroz foi preso na casa de Frederick Wassef, em junho do ano passado, na cidade de Atibaia (SP).

Em seguida, o ex-assessor e a mulher, Márcia Aguiar, ficaram oito meses em prisão domiciliar. Queiroz ainda ficou um mês preso em Bangu. Já sua mulher passou um mês foragida, até que a defesa obteve um habeas corpus.

Assim que foi posto em liberdade, Queiroz retomou sua rotina de alinhamento com a família Bolsonaro, fazendo postagens favoráveis ao clã nas redes sociais. Ele também tem feito acenos defendendo as mesmas posições do presidente Jair Bolsonaro. Em abril, tentou emplacar uma de suas filhas em uma vaga na Casa Civil do Palácio Guanabara. No entanto, quando a nomeação foi descoberta, a equipe do governador do Rio, Cláudio Castro, voltou atrás e a tornou sem efeito.

Queiroz, porém, continua circulando e retomando os contatos políticos que possuía após ter ajudado a eleger grande parte das bancadas federal e estadual do PSL no Rio de Janeiro. Ele disse à coluna, em junho deste ano, que era uma "boa ideia" se candidatar a deputado federal na eleição de 2022. O policial foi assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj entre 2007 e outubro de 2018.