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Juliana Dal Piva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um presidente em silêncio sobre as denúncias: quem é o inimigo do Brasil?

25 ago. 2021 - Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia pelo Dia do Soldado, em Brasília - Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
25 ago. 2021 - Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia pelo Dia do Soldado, em Brasília Imagem: Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

07/09/2021 10h03

Acordei na manhã deste 7 de setembro com a lembrança do discurso de Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Constituinte em 1988. No emblemático discurso, que ficou para a História, o deputado constituinte afirmou: "Traidor da Constituição é traidor da Pátria". A lembrança, não à toa, é uma preocupação com o discurso golpista de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em manifestações antidemocráticas nesta terça-feira.

Esse trecho do discurso de Ulysses me trouxe também à memória que foi há dois meses que o advogado do presidente Jair Bolsonaro, Frederick Wassef, me ameaçou dizendo que "meu corpo podia desaparecer" se eu fizesse o trabalho que faço no Brasil na China. Também me chamou de "inimiga da pátria e do Brasil". Mas eu não traí a Constituição.

O que fiz, junto à equipe do UOL, foi publicar uma série de reportagens e o podcast A vida secreta de Jair com os primeiros indícios do envolvimento direto de Jair Bolsonaro em um esquema criminoso dentro de seu próprio gabinete no tempo em que estava na Câmara dos Deputados.

Até hoje, Jair Bolsonaro não explicou porque sua ex-cunhada Andrea Siqueira Valle disse que ele demitiu um irmão dela chamado André. Na gravação, Andrea justifica que Bolsonaro exonerou André porque ele "nunca devolvia o dinheiro certo que tinha que devolver".

Bolsonaro também não explicou sua relação com o colega de Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), coronel Guilherme Hudson, que foi apontado por ela como a pessoa que coletava esse dinheiro da família de sua segunda mulher. Ou ainda porque Andrea, funcionária fantasma por 20 anos, admitiu que devolvia 90% de seu salário.

Mas não foi só sobre esses pontos que Bolsonaro silenciou. Há cerca de um ano ele se recusa a dar outras explicações. Ele já não tinha explicado os R$ 89 mil em cheques depositados por Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro. Caso revelado pelo jornalista Fábio Serapião. Na ocasião, além de não explicar, ameaçou de porrada um repórter que perguntou do assunto.

O presidente também não contou a origem do dinheiro vivo para a compra de cinco imóveis com Ana Cristina, sua segunda mulher, e um apartamento de sua primeira mulher, Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo.

Os questionamentos sobre os fatos se avolumam. Há uma vida pública de 30 anos de Jair Bolsonaro repleta de funcionários fantasmas e imóveis pagos em dinheiro vivo por explicar.

Recentemente, Bolsonaro também não falou nada sobre as declarações do ex-empregado Marcelo Nogueira de que entregava 80% do salário para sua ex-mulher no período em que Bolsonaro vivia com Ana Cristina. Caso revelado pela coluna do jornalista Guilherme Amado e confirmado pela coluna.

Numa democracia, o governante tem obrigação de responder a questionamentos como esses. No lugar disso, o presidente passou a intensificar sua defesa do "voto impresso" e colocou sob dúvida a eleição de 2022 se o tal "voto impresso" não fosse instituído. Perdeu no Congresso Nacional. Mas ampliou sua crise com o STF, inclusive com um pedido inédito de impeachment de um ministro da Corte, já recusado no Senado.

Há alguns meses, pessoas no entorno do presidente mencionam suas preocupações caso não vença as eleições. Uma das principais é ser preso. O próprio Bolsonaro mencionou isso recentemente ao falar que existem três opções para seu futuro: "estar preso, ser morto ou a vitória".

Volto ao discurso de Ulysses Guimarães: "Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério".

Ao ameaçar jornalistas, integrantes de outros poderes e participar de manifestações que defendem o fechamento do STF e do Congresso Nacional, em si, o fim de instituições que representam a própria democracia. Quem então está respeitando ou não a Constituição?

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado na versão original do texto, o discurso de Ulysses Guimarães foi na Assembleia Constituinte foi em 1988 e não em 1998. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL