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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Bastidores: CPI não deve agendar depoimento de 2ª mulher de Bolsonaro

Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

16/09/2021 13h42

A CPI da pandemia votou na quinta-feira (15) um requerimento de convocação para que a advogada Ana Cristina Valle prestasse depoimento. Ela é a segunda mulher de Jair Bolsonaro (sem partido) e mãe de Jair Renan, o filho "04" do presidente. No entanto, depois da votação, o depoimento gerou divisão no chamado "G7", o grupo de senadores crítico à atuação do governo Bolsonaro na pandemia e que controla os trabalhos na CPI. A coluna apurou que nas discussões travadas desde ontem à noite está prevalecendo a possibilidade de o depoimento da advogada não ser agendado até o fim da CPI na próxima sexta-feira.

Na avaliação dos senadores contrários ao depoimento, há poucos elementos para a convocação de Ana Cristina em relação ao que é investigado na CPI. Esses senadores argumentam que o nome dela apenas foi citado no depoimento do lobista Marconny Albernaz de Faria na quarta-feira (15). Ou seja, nessa visão, o nome dela veio já no final dos trabalhos da comissão e o caso poderia soar como uma provocação ao presidente Jair Bolsonaro em um momento já tenso entre os poderes da República.

Os motivos que levaram a CPI a votar a convocação de Ana Cristina estão relacionados a um conjunto de mensagens entre ela e Marconny no ano passado. Em duas ocasiões pelo menos, os dois discutiram nomes de pessoas para nomeações em cargos públicos e Ana Cristina disse que iria recorrer a Jorge Oliveira, ex-ministro da Secretaria Geral da Presidência e agora ministro do TCU (Tribunal de Contas da União). As mensagens compartilhadas com a CPI foram divulgadas em reportagem do jornal O Globo.

Oliveira chegou até a ser cotado como candidato a ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). O ministro foi assessor de Bolsonaro desde o tempo em que Bolsonaro era deputado, entre 2005 e 2007, e seu pai, Jorge Francisco, foi chefe de gabinete do presidente no período da Câmara. Francisco faleceu em 2018, meses antes da eleição. Oliveira também foi chefe de gabinete do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e é alguém de extrema confiança da família há quase duas décadas.

Ana Cristina está sob intenso escrutínio público. O nome dela começou a circular como um "calcanhar de aquiles" do então candidato a presidente Jair Bolsonaro ainda na campanha eleitoral de 2018, mas foi com as investigações sobre rachadinha nos gabinetes de Flávio (Patriota-RJ) e Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) que ela nunca mais deixou o noticiário.

No entanto, até agora, Ana Cristina nunca teve que se explicar na frente das autoridades. O depoimento na CPI da Pandemia poderia representar a primeira vez em que ela iria falar, com o compromisso de dizer a verdade, sobre os rolos em que se envolveu desde que viveu como companheira do agora Presidente da República.

A advogada nunca adotou o sobrenome "Bolsonaro". Ela e Jair Bolsonaro passaram a viver juntos em 1998 e se separaram entre 2007 e 2008. De modo surpreendente, em 2018, ela passou a se apresentar como "Cristina Bolsonaro" e se candidatou a deputada federal pelo Podemos. Teve 4,5 mil votos e foi insuficiente para obter uma cadeira no Congresso.

No meio da transformação da Ana Cristina Valle para a "Cristina Bolsonaro" muita coisa aconteceu. Uma gravação de Andrea Siqueira Valle, irmã da advogada, revelada pela coluna no episódio 2 do podcast "A vida Secreta de Jair", deixa claro como é difícil a relação do ex-casal.

"A Cristina falou para mim. Se o Jair não deixar eu usar o nome dele por bem, eu vou usar por mal. Então quer dizer, ela fez chantagem com ele para poder usar o nome dele, né", contou a fisiculturista, ao mencionar o uso do sobrenome "Bolsonaro" na eleição de 2018.

Quando Andrea contou isso, entre 2018 e 2019, ela não imaginava ver a irmã frente a tantas investigações. Mas a fisiculturista dá o tom do tanto que a advogada sabe sobre a vida de Jair Bolsonaro desde o tempo em que ele nem sonhava com a ideia de ocupar a cadeira de Presidente da República.

Por isso, há bastante tempo, pessoas do círculo próximo do presidente afirmam que a segunda mulher de Bolsonaro precisa ser "administrada". E as mensagens entre ela e o lobista mostram que um desses interlocutores é Jorge Oliveira. Era a ele que Ana Cristina dizia recorrer pelas indicações de cargos. O ministro nunca explicou essas interações com a advogada.

Investigada há dois anos pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio), ela nunca prestou esclarecimentos sobre o período em que chefiou o gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e vários parentes seus eram "funcionários fantasmas".

Foi chamada no fim de 2019 e despistou, por meio de sua defesa, pedindo para remarcar. Depois, em julho do ano passado, problemas técnicos da videoconferência impediram o depoimento. Não foi mais chamada. Mas, recentemente, teve o sigilo bancário quebrado nessa investigação junto com Carlos e outras 25 pessoas. Ana Cristina pode escapar das explicações sobre as mensagens na CPI, mas está na mira do MP-RJ.