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Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com fala de estadista, Lula mostra ser nome mais forte para bater Bolsonaro

10.mar.2021 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista - Vinícius Nunes/Agência F8/Estadão Conteúdo
10.mar.2021 - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante coletiva de imprensa realizada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista Imagem: Vinícius Nunes/Agência F8/Estadão Conteúdo
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

10/03/2021 15h15Atualizada em 10/03/2021 18h55

Com o discurso e a entrevista que deu nesta quarta-feira, o ex-presidente Lula mostrou que é o candidato mais forte para bater Jair Bolsonaro na disputa eleitoral de 2022.

Lula demonstrou preparo para debater temas do país como um estadista. Ficou evidente o desejo de voltar à Presidência. E mostrou que sabe qual é o caminho para derrotar Bolsonaro, com críticas que foram aos pontos fracos do pior presidente da história do país.

O petista acertou no tom e no conteúdo. O principal acerto foi se conectar com os brasileiros que estão atravessando a tragédia da pandemia. Na largada, disse que o sofrimento pelo qual o povo passa não lhe dá o direito de colocar ressentimentos em primeiro plano, frisando que se lembrará sempre das chibatadas que recebeu da Lava Jato.

As falas de Lula eram para tratar da decisão do ministro Edson Fachin que tornou o petista novamente elegível para concorrer ao Palácio do Planalto. De modo inteligente, agradeceu a Fachin e a outros ministros do STF, num exemplo de tentar reconstruir pontes que usaria em outros momentos do discurso e da entrevista. Lula transformou o limão numa limonada.

Bateu no ex-juiz Sergio Moro, no procurador Deltan Dallagnol e companheiros da força-tarefa na medida que mereceram, mas não fez disso o tema principal. Colocou a retomada do crescimento econômico com combate à desigualdade no centro do discurso e da entrevista. Deu excelente exemplo ao falar da vacina e das medidas de mitigação da pandemia. Conectou-se com o povo, numa linguagem fácil de ser entendida e carismática, semelhante aos melhores momentos na Presidência.

"O planeta é redondo" foi uma tirada sensacional. A de por onde anda o Zé Gotinha também pegou forte na negligência homicida de Bolsonaro na resposta à pandemia. Dizer que o Brasil não tem governo é escancarar o óbvio. Lula soube tratar das Forças Armadas, minimizando a mentalidade golpista dos militares e ressaltando como respeitou e investiu no Exército, Marinha e Aeronáutica. Reafirmou a autoridade civil sobre a militar ao dizer que exoneraria Eduardo Villas Boas se fosse presidente quando o então comandante do Exército pressionou o STF via Twitter. Militares não devem se intrometer na política, disse Lula, coberto de razão.

Com altivez, respondeu bem ao medo do mercado, lembrando que o andar de cima ganhou muito com ele no poder. E deixou claro que o investimento público, as estatais e um papel indutor do estado no crescimento econômico são a visão econômica que tem para o país.

Foi habilidoso ao dar abertura para falar com Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara que fez ao longo do discurso do petista uma série de posts no Twitter para dizer que não dá para comparar Lula com Bolsonaro. E ainda brincou que teria temas como emprego e pandemia a conversar com o deputado do DEM, mas seria melhor ainda falar sobre como tirar o genocida do poder. Com disposição para ampliar alianças com conservadores, o petista ocupou espaço do que chamam erradamente por aí de "centro".

Asssitir às falas de Lula é uma aula de política e poder. Com as palavras de hoje, será quase impossível evitar uma candidatura ao Palácio do Planalto em 2022.

Com tom de esperança e de quem sabe o caminho para chegar lá, Lula falou do futuro com domínio sobre política externa, economia, direitos humanos e meio ambiente. Mostrou sensibilidade sobre os efeitos da pandemia e do desemprego na vida real das pessoas. Foram discurso e entrevista de presidente da República, não do despreparado que está de plantão no Palácio do Planalto.

Com firmeza, ele soube responder às críticas de Ciro Gomes, mas sem ofensas. Deixou Luciano Huck no lugar pequeno que o apresentador de TV merece no debate eleitoral.

Quem gosta de comparar Lula a Bolsonaro teve uma oportunidade de ouro para ressignificar a sua opinião sobre bobagens escritas e faladas na imprensa a respeito da polarização com falsa equivalência que ganhou a praça. Foi um grande dia para Lula, para a política e para a democracia. Seus possíveis concorrentes à esquerda e à direita têm com o que se preocupar.

O mundo é redondo, e como dá voltas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL