PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

CPI deve tratar Bolsonaro como motorista bêbado que assume risco de matar

Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - ADRIANO MACHADO
Presidente Jair Bolsonaro com caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada Imagem: ADRIANO MACHADO
Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

26/04/2021 15h14

Na pandemia, o presidente Jair Bolsonaro se comporta como um motorista que bebe, decide dirigir e, portanto, assume o risco de matar, diz um senador da CPI da Pandemia.

Segundo ele, o presidente deverá ser apontado pela Comissão Parlamentar de Inquérito como o principal responsável por mais gente ter morrido e adoecido no Brasil. Iniciativa do Senado, a comissão começará os seus trabalhos amanhã.

Especialistas afirmam que o país não precisava ter 400 mil mortes, marca que deverá ser alcançada em breve. A resposta de Bolsonaro à pandemia resultou em crises sanitária e econômica agudas.

Desde o começo do ano passado, Bolsonaro disse que era inevitável a contaminação em massa da população, classificou a covid-19 como "gripezinha", estimulou aglomerações, não usou máscara de propósito, tratou a vacina com desdém, receitou medicamentos ineficazes e sabotou as medidas de quarentena adotadas por governadores e prefeitos. No meio disso tudo, vive ameaçando dar um golpe de Estado com apoio das Forças Armadas.

Quando o deputado Osmar Terra (MDB-RS) e empresários como Roberto Justus e Junior Durski falavam, com desprezo pela vida, em pagar o preço de alguns milhares de mortes para deixar o coronavírus se espalhar pelo Brasil, eles ecoavam a estratégia de imunidade de rebanho implementada por Bolsonaro com negligência homicida.

Imunidade de rebanho é um conceito da infectologia. Significa que existe um percentual alto de determinada comunidade já imunizado (via vacina ou naturalmente ao se curar da infecção). Assim, a taxa de contaminação cai abruptamente e controla a expansão da doença.

Bolsonaro e o seu governo apostaram numa imunidade de rebanho que seria atingida naturalmente. Bastaria deixar o vírus correr livre, leve e solto. Acontece que a covid-19 não é uma "gripezinha". Mata e deixa sequelas em percentual muito maior do que a influenza.

O custo superou em muito as previsões de Osmar Terra, Roberto Justus e Junior Durski, entre outros políticos e empresários que endossaram a estratégia homicida de Bolsonaro.

Simultaneamente, Bolsonaro esticou o período de crise e aumentou os danos à economia com negacionismo científico, maus exemplos sanitários, sabotagem cotidiana a medidas de mitigação e vacinação a conta-gotas. O empobrecimento do país se dá num grau ainda maior do que normalmente aconteceria apenas com a incompetência gerencial do presidente e do ministro da Economia, Paulo Guedes.

A mistura de despreparo com descaso pela vida aumentou o preço que a população paga e pagará por não se sabe quanto tempo. Além de provocar mais mortes, a ação do governo federal deixará com sequelas um contingente maior da população, aumentando a sobrecarga sobre o SUS (Sistema Único de Saúde).

Na lista com 23 acusações de má conduta na pandemia, elaborada pelo próprio governo, Bolsonaro gabaritou. De propósito, ele adotou uma estratégia que provocou mais mortes e doentes. Com previsões que dão conta de 500 mil mortes em julho e 600 mil por volta de agosto, dá para chamá-lo de genocida sem pestanejar.

A CPI da Pandemia terá como missão principal responsabilizar o presidente política e penalmente. "As provas estão todas aí, ok?", ironiza um senador. Esse parlamentar diz que o documento do governo com 23 acusações soa como "uma confissão". Como se fala no direito, a culpa de Bolsonaro é fato notório.