PUBLICIDADE
Topo

Kennedy Alencar

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Gravações revelam o que Bolsonaro sempre foi e agravam situação política

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

05/07/2021 08h24

Jair Bolsonaro sempre foi corrupto e transmitiu aos filhos a tecnologia de enriquecimento ilícito por meio da rachadinha. O esquema é se apropriar dos salários de funcionários fantasmas indicados nos gabinetes parlamentares de Jair Bolsonaro e seus filhos políticos Flávio, Carlos e Eduardo.

Reportagem de Juliana Dal Piva, no UOL, revela áudios bombásticos de uma ex-cunhada do presidente, a fisiculturista Andrea Siqueira Valle. Ela conta que Bolsonaro demitiu André Siqueira Valle, irmão dela e ex-cunhado do presidente, porque ele se recusava a entregar a maior parte do salário de assessor fantasma do então deputado federal.

"O André deu muito problema porque ele nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6.000, ele devolvia R$ 2.000, R$ 3.000. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: 'Chega. Pode tirar ele porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'", diz Andrea nas gravações obtidas pelo UOL.

Numa série de três reportagens, Dal Piva traz novas evidências de que Bolsonaro e familiares construíram seus patrimônios à sombra da corrupção. O pai ensinou os filhos a cometer peculato, entre outros comportamentos que contrariam o Código Penal.

A rachadinha bolsonarista tinha, pelo menos, dois recolhedores da apropriação indébita e fraudulenta: o já conhecido Fabrício Queiroz, um ex-policial militar ligado à milícia do Rio, e o agora revelado Guilherme Hudson, um coronel da reserva do Exército e tio da ex-cunhada de Bolsonaro.

O advogado da família, Frederico Wasseff, negou as acusações. Mas os áudios são demolidores para Bolsonaro e filhos. Vale ouvi-los.

A situação política do presidente, que já vinha piorando, agrava-se ainda mais. O governo entrou numa espécie de liquidificador político, com fatos negativos que se sucedem e aumentam o desgaste.

As revelações do UOL reforçam a imagem de corrupto, carimbo que a CPI da Pandemia conseguiu colar em Bolsonaro ao investigar dois casos nebulosos de tentativa de compra de imunizantes (Covaxin e Davati).

Nas manifestações de sábado, "ladrão de vacinas" era uma frase presente em cartazes e palavras de ordem.

Na noite de domingo, Bolsonaro foi ao Twitter fazer insinuações supostamente contra um ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). O presidente sugeriu haver gravações comprometedoras numa série de tuítes em carluxês.

Mas o presidente amanheceu na segunda com gravações que mostraram ao país o que ele sempre foi: um político desonesto e menor que enriqueceu subtraindo dinheiro de funcionários fantasmas.

Dois cúmplices de Bolsonaro na pandemia, o procurador-geral da República, Augusto Aras, e o presidente da Câmara, Arthur Lira, terão dificuldade para continuar a engavetar denúncias e pedidos de impeachment, mas poderão cobrar mais caro para seguir protegendo um criminoso em série contra a democracia, a saúde pública e o erário.

A vida não tá fácil pra ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL