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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro deve fracassar como Trump, mas pode legar danos à democracia

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

23/08/2021 14h27Atualizada em 23/08/2021 19h42

A pandemia não acabou, o Pantanal está secando, a economia vai mal, o desemprego bateu nas alturas e os direitos sociais e trabalhistas são demolidos no Congresso, mas a energia do debate público se concentra na defesa da democracia.

Esse é o retrato do abismo no qual o país foi atirado por todos os que contribuíram para a ascensão de Jair Bolsonaro ao poder. É absurdo, mas necessário que em 2021 a agenda de defesa de democracia seja a prioridade do Brasil.

Em reunião do Fórum de Governadores, realizada nesta segunda em Brasília, Wellington Dias (PT-PI) propôs um pacto em defesa da democracia numa resposta às ameaças de golpe do presidente da República. João Doria (PSDB-SP) alertou para o risco da infiltração bolsonarista nas Polícias Militares, que poderiam atuar como milícias políticas de um presidente derrotado nas urnas.

Sem passar um dia sem criar uma crise artificial e atormentar o debate público, Bolsonaro não tem competência para nada, nem para ser ditador. Não há apoio na sociedade civil a um golpe. Tampouco existe atmosfera internacional como nos anos 60. No entanto, isso não significa que devam ser menosprezadas as ameaças cotidianas de Bolsonaro e seus aliados à democracia.

No ano passado, na eleição americana, indagava-se se aquela democracia centenária resistiria a um segundo mandato de Donald Trump. Devemos fazer a mesma pergunta em relação ao Brasil e Bolsonaro.

Vivendo em Washington no ano passado, vi que não foi fácil derrotar o obscurantismo no país mais poderoso do planeta. No Brasil, não será um passeio no parque enfrentar em 2022 a máquina de fake news bolsonarista.

O uso da mentira como arma desequilibrava o jogo a favor de Trump. Se um lado joga dentro da lei enquanto o outro atua fora, obviamente os desleais levam vantagem.

Bolsonaro não tem compromisso com a verdade nem com o país, apenas com a fuga em família da polícia, da Justiça e da CPI da Pandemia. Ele repete a estratégia de Trump de estressar a democracia o tempo todo com mentiras e manipulação política.

Bolsonaro é candidato a ditador, como Trump era. Os dois jogaram e jogam fora da lei. Têm o método dos criminosos. Bolsonaro tende a fracassar como Trump fracassou, mas poderá deixar legado de danos se não for enfrentado com firmeza. Ambos adotaram projetos de destruição institucional que se revelaram parcialmente exitosos nos dois países. O envenenamento do debate público nos EUA não acabou com a derrota de Trump.

O americano se dizia vítima do "deep state" (estado profundo), um imaginário complô de servidores públicos que controlaria a máquina de poder nos EUA para dinamitar seu governo e possibilitar a volta dos democratas à Casa Branca. Trump deu corda à teoria conspiratória sobre fraude no voto pelo correio, expediente confiável e antigo no sistema eleitoral americano.

O brasileiro já se julgou vítima do Congresso, mas agora elegeu como alvos preferenciais o Supremo Tribunal Federal e seus ministros, que estariam, com endosso da imprensa, tramando a volta de Lula ao poder. A principal cartada da conspiração seriam urnas eletrônicas manipuláveis para dar votos ao PT. Bolsonaro copia à risca o roteiro trumpista.

Nos EUA, encontrei eleitores que acreditavam piamente que Trump havia derrotado Joe Biden. No Brasil, ocorre processo semelhante de descrença em relação ao voto eletrônico.

É imperativo aprender com o processo eleitoral americano de 2020. Imprensa e sociedade civil não podem cometer os mesmos erros de 2018, quando normalizaram Bolsonaro e endossaram a demonização da política capitaneada pela Lava Jato, que apoiou o genocida. Também devemos parar de flertar com autoritários que se vestem de democratas, como Sergio Moro, que não conseguiu negociar nem um pacote legislativo com o Congresso.

O debate sobre a "Terceira Via" tem de ser feito com mais responsabilidade. Quem não quer Lula ou Bolsonaro tem todo o direito de articular uma alternativa. No entanto, não dá para continuar a fazer falsas equivalências. No poder, o PT jogou o jogo democrático. Bolsonaro não joga.

Nesse contexto, fazem sentido a proposta do petista Wellington Dias e o alerta do tucano João Doria. Ao tolerar as críticas mais duras possíveis, a democracia dá paridade de armas até aos seus inimigos. Logo, é necessário defendê-la com vigor o tempo todo. Engajar governadores na defesa do regime democrático é boa notícia, bem como punir coronéis golpistas das PMs.

Aliás, a infiltração bolsonarista que Doria enxerga nas PMs já está presente em boa parte das Forças Armadas, inclusive na cúpula. O ministro da Defesa, Braga Netto, revelou-se um personagem nefasto para a democracia brasileira.

É urgente que o Brasil trace uma linha clara separando os democratas de Bolsonaro e seus bárbaros. Há um embate, sim, entre democracia e autoritarismo. Autoridades cúmplices e omissas estão perdendo a chance de demonstrar lealdade às instituições.

Não devemos ter nenhuma ilusão. A convocação para manifestações golpistas é mais um crime de responsabilidade de Bolsonaro. É assim que a coisa deve ser tratada pelo Legislativo, Judiciário e sociedade civil, inclusive imprensa.

Pedir o fechamento do STF não é liberdade de expressão. É crime. Pedir ditadura não é liberdade de expressão. É crime. Fazer falsas acusações contra ministros do STF e encaminhar seus pedidos de impeachment ao Senado não é agir dentro dos marcos legais. É crime.

Bolsonaro é criminoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL