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Kennedy Alencar

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Civilizatória, CPI salvou vidas e dificultou reeleição de Bolsonaro

Kennedy Alencar

O jornalista Kennedy Alencar é correspondente e comentarista da rádio CBN em Washington. Começou sua carreira em 1990 na ?Folha de S.Paulo?, onde foi redator, repórter, editor da coluna ?Painel? e enviado especial às guerras do Kosovo e Afeganistão. É autor do livro ?Kosovo, a Guerra dos Covardes? (editora DBA). Na RedeTV!, apresentou durante cinco anos o programa de entrevistas ?É Notícia? e mediou os debates presidenciais de 2010 e municipais de 2012. Estreou como comentarista da rádio CBN em 2011. Criou o "Blog do Kennedy" em 2013. Trabalhou no SBT entre 2014 e 2017. É produtor-executivo e roteirista do documentário ?What Happened to Brazil?, realizado para a BBC World News. Com uma versão em português intitulada ?Brasil em Transe?, o documentário retrata a crise que começa nas manifestações de junho de 2013, passa pelo impacto da Lava Jato e do impeachment de Dilma na política e na economia e resulta na eleição de Bolsonaro.

Colunista do UOL

21/10/2021 16h23

A CPI da Pandemia salvou vidas e dificultou a reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Esses dois efeitos civilizatórios e históricos são as melhores heranças da Comissão Parlamentar de Inquérito.

Há seis meses, quando começaram os trabalhos da CPI, o genocida nadava de braçada no noticiário difundindo negacionismo científico.

A CPI ajudou a população a entender que a cloroquina não curava a covid-19 e que poderia ter efeito letal em alguns casos. A ivermetctina também foi desmacarada como droga de combate ao coronavírus.

Mais vacinas foram compradas e mais brasileiros se imunizaram graças à CPI, que virou um palco iluminista em meio ao obscurantismo que corria sem contraponto havia mais de um ano de pandemia.

Na CPI, o presidente da Anvisa, o contra-almirante Antonio Barra Torres, deu um depoimento a favor das vacinas num momento em que Bolsonaro lançava dúvidas sobre os imunizantes.

A comissão também descortinou um esquema de picaretas interessados em comprar vacinas por meio de intermediários que permitiriam algo semelhante à rachadinha, expediente caro à famílicia. O mote "ladrão de vacinas" pegou nas manifestações que pediam "Fora, Bolsonaro".

Enquanto Bolsonaro tirava máscara de criança e aglomerava Brasil afora em motociatas, espalhando o coronavírus como se não houvesse amanhã, a CPI levou especialistas que explicaram à população a importância do distanciamento social, do uso da máscara e da vacina.

Enquanto Bolsonaro matava, a CPI salvava vidas. Só por isso ela já teria valido a pena, pois acabou com o "doisladismo" da imprensa. Na pandemia, Bolsonaro esteve errado o tempo todo. A CPI esteve certa.

A narrativa verdadeira sobre a pandemia não é a do senador Marcos Rogério e de seus minúsculos negacionistas, mas a de Omar Aziz, Renan Calheiros, Randolfe Rodrigues, Humberto Costa, Otto Alencar, Tasso Jereissati, Rogério Carvalho, Alessandro Vieira, Fabiano Contarato, Eliziane Gama, Simone Tebet, Soraia Thronicke, entre outros senadoras e senadores que jogaram do lado certo da História.

A CPI produziu mais um resultado que tende a melhorar o futuro da população. Ela aumentou a chance de os brasileiros se livrarem de um segundo mandato do genocida em outubro de 2022. A democracia e a saúde pública agradecem.

Bolsonaro ficou acuado politicamente e viu a sua narrativa falsa ser desconstruída em praça pública. O genocida se enfraqueceu política e eleitoralmente ao longo da investigação parlamentar.

É uma pena que a acusação por genocídio da população indígena tenha sido retirada do relatório final. Provavelmente, ela teria apenas 3 dos 11 votos a seu favor numa disputa entre todos os componentes da CPI. Prevaleceu uma visão pragmática diante da correlação de forças. O G7, grupo majoritário da CPI, rachou nesse ponto e pagará o preço político por isso.

No entanto, na falta do tão debatido tipo penal, podemos recorrer ao Aurélio, que define genocida de duas formas: "Pessoa que ordena ou é responsável pelo extermínio de muitas pessoas em pouco tempo" ou "Pessoa que cometeu genocídio, quem deliberadamente ordenou o extermínio de um grande número de pessoas, de todo um grupo étnico ou religioso, de um povo, de uma cultura ou de uma civilização".

Os índios brasileiros sabem o que andaram e andam sofrendo antes e durante a pandemia.

Fiquemos apenas com a primeira definição do Aurélio. Ela resume tudo.

Genocida é a "pessoa que ordena ou é responsável pelo extermínio de muitas pessoas em pouco tempo".

Bolsonaro é ou não é?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL