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Prefeito do Rio tem que agradecer a Deus que tem aprovação de 8%

Chuvas no Rio de Janeiro deixam pessoas ilhadas  em abril deste ano - Carl de Souza/CDS/AFP
Chuvas no Rio de Janeiro deixam pessoas ilhadas em abril deste ano Imagem: Carl de Souza/CDS/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

15/12/2019 04h37

A gestão do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, é considerada ruim e péssima por 72% dos entrevistados pelo Datafolha. A pesquisa, divulgada neste domingo (15), mostra que outros 20% a avaliam como regular e apenas 8% como ótima e boa.

É surpreendente que ele ainda tenha 8% de ótimo e bom. O bispo licenciado da Igreja Universal deve isso aos evangélicos, que o rejeitam menos que os demais (56% de ruim e péssimo), e mais especificamente os neopentecostais (49%).

O prefeito viu piorar a já caótica situação da saúde pública com a crise financeira pela qual passa o município, o que inclui até greve por falta de pagamento de salários a trabalhadores que atuam em hospitais e postos. Nesta sexta (13), ele conseguiu assinar um repasse de R$ 152 milhões do governo federal para a saúde de município. Isso nem de perto resolve a situação.

De acordo com o Datafolha, 68% dos entrevistados apontaram esse é o pior problema da cidade - para efeito de comparação, só muito depois vêm violência com 12% e educação 3%.

Mas a falta de paciência do carioca com Crivella não se deve só a isso. É um mandato que acumula erros e incompetências.

Logo no início do mandato, em janeiro de 2017, seu secretário de Ordem Pública do Rio, coronel Paulo Amêndola, quis retomar a revista a pessoas pobres que chegassem de ônibus às praias da Zona Sul carioca.

"Os ônibus vão chegando, despejando pessoas nas praias, e grupos de policiais vão revistar as pessoas, ver se estão armados, verificar se têm documentos. Tem menores de idade que saltam na Zona Sul sem dinheiro. Como vão voltar? Vão roubar de alguém! Ou dar calote. Os guardas nas areias estarão de olho nessas pessoas", afirmou em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo. Ou seja, quem viesse sem dinheiro se tornaria um suspeito.

Depois, Crivella resolveu praticar caminhada nos corredores do Supremo Tribunal Federal para tentar convencer os ministros de que não havia mal algum em nomear seu próprio filho Marcelo Hodge Crivella para a Casa Civil de sua administração. "O Marcelo não é suscetível, nem melindroso. Sabe que a vida pública não é concurso de beleza", disse o pai ao mostrar que, apesar do nepotismo, ele é um bom menino. O ministro Marco Aurélio Mello havia suspendido a nomeação de Marcelo Hodge para o cargo.

A incompetência para lidar com o impacto do clima foi um capítulo à parte. E custou a vida de muita gente.

Em junho de 2017, sua administração não alertou sobre a gravidade das chuvas que caíam sobre a cidade para evitar que a população entrasse em pânico. Sim, foi isso mesmo que você leu. Censurar deliberadamente uma informação útil para evitar pânico não é apenas um paternalismo burro que desconsidera que a população é capaz de tomar decisões sobre sua própria vida. Também não fica restrito ao campo da irresponsabilidade e da incompetência. É um ato ilegal, pois priva a sociedade de informações públicas fundamentais para a garantia de sua integridade.

No ano seguinte, entre os dias 14 e 15 de fevereiro, um temporal atingiu o Rio, deixando mortos por deslizamentos de terra, ruas alagadas, casas destruídas, árvores caídas, vias interditadas, caos no transporte público e problemas no fornecimento de energia elétrica. Enquanto residências pobres das zonas Norte e Oeste afundavam na lama, o prefeito viajava para a Europa a fim de visitar a Agência Espacial Europeia, entre outras instituições.

Do conforto de hotéis que não correm o risco de inundação, mandou um recadinho solidário à população via redes sociais: "Caros amigos, estou acompanhando a situação. O alerta de crise para a chuva intensa foi dada [sic] e a defesa civil foi colocada em prontidão para atuar prontamente em caso de acidentes graves".

No dia 8 de abril deste ano, mortos por soterramento, afogamento e eletrocussão voltaram a polvilhar a cidade. "Falhamos" e "atrasamos", disse ele sobre a falta de limpeza das galerias para escoamento de água diante das fortes chuvas. "Não fomos prudentes", também disse ao reconhecer que não posicionou equipes de atendimento perto aos conhecidos pontos críticos. "São imprevistos", afirmou diante de um novo desabamento da ciclovia Tim Maia.

Agora, ele tinha em mãos as informações sobre o clima, os recursos humanos e técnicos para reduzir seu impacto junto à população e a experiência de quem já passou por outras situações semelhantes em 2017, 2018 e em fevereiro, quando sete mortes estúpidas vieram com as chuvas de fevereiro. Mas a falta de ação deixou nos moradores apenas a certeza de que mais mortes virão no verão de 2020.

Crivella livrou-se de um processo de impeachment, em junho do ano passado, após votação na Câmara dos Vereadores. O motivo eram ilegalidades no processo de aditamento de contratos de publicidade no mobiliário urbano.

E foi acusado, em julho de 2018, de dar vantagens a lideranças religiosas. Prometeu ajuda, por exemplo, para encaminhar fieis a cirurgias (ou seja, em tese, furar a fila) e agilizar a isenção da cobrança de IPTU de templos. "Nós temos que aproveitar que Deus nos deu a oportunidade de estar na Prefeitura para esses processos andarem", disse o prefeito, segundo registro do jornal O Globo.

O flagra não foi a única vez em que ele privilegiou sua base religiosa em detrimento ao restante da população, tanto que o Ministério Público entrou com uma ação de improbidade, citando atos a serem investigados. Como eventos de igrejas em escolas públicas e um censo religioso na Guarda Civil.

No dia 9 de março de 2019, uma operação da prefeitura do Rio derrubou dezenas de barracas e quiosques de ambulantes na principal praça da Vila Kennedy, levando os comerciantes ao desespero. A operação foi considerada um desastre e Crivella acabou autorizando que permanecessem no mesmo local com tendas provisórias.

O ato de populismo eleitoral mais recente foi sua cruzada, em setembro, para salvar a cidade da terrível ameaça trazida pelo desenho de um beijo gay entre dois rapazes, parte de uma graphic novel que estava à venda na Bienal do Livro. Determinou "que os organizadores recolhessem os livros com conteúdos impróprios para menores" e mandou fiscais para fazer a triagem. Com tanto problema para se debruçar, como os enumerados acima, Crivella se tornou fiscal de gibi.

Seguiu o exemplo de Bolsonaro, mantendo seus seguidores excitados em uma guerra cultural, disfarçando, ao mesmo tempo, o vazio em medidas para melhorar a vida dos cidadãos.

Crivella tentará, em 2020, mais quatro anos à frente da cidade. Até agora, tem sido incompetente também em implementar políticas para garantir qualidade de vida aos jovens dos bairros pobres da cidade, que continuam morrendo pelas mãos de traficantes, das milícias e da polícia. Preferiu fazer proselitismo religioso e castrar direitos.

A questão não é se ele consegue se reeleger, mas se o Rio aguenta sua reeleição.

Leonardo Sakamoto