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Leonardo Sakamoto


Sem-teto acusam PMs de truculência sob lema "agora é Bolsonaro" em AL

Líderes sem-teto acusam polícia de truculência em ocupação em Maceió - Reprodução
Líderes sem-teto acusam polícia de truculência em ocupação em Maceió Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

27/12/2019 14h03

"Duas viaturas da polícia apareceram aqui na ocupação na manhã de hoje. Fizeram uma ação violenta. Renderam pessoas, mandaram outras entrarem nos barracos, invadiram e quebraram coisas da cozinha coletiva. Rasgaram nossos livros de registros. Gritavam 'quem manda agora é Bolsonaro' e 'Lula está morto'. Tocaram fogo em nossas bandeiras e disseram que tínhamos que trocar pela bandeira do Brasil."

Eliane Silva, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), em Alagoas, acusou policiais militares de realizarem uma ação truculenta na ocupação Dandara, na periferia de Maceió, nesta manhã de sexta (27).

Segundo ela, a área, com 14 hectares, foi cedida pelo governo Renan Filho (MDB), em 2018, para a construção de moradias populares e se localiza em um dos bairros mais pobres da cidade, Benedito Bentes. A Universidade Federal de Alagoas está trabalhando em um projeto do conjunto residencial que será erguido no local para as 446 famílias.

"Não bateram em ninguém. Chegaram a algemar e botar uma das companheiras que estava na cozinha na viatura, sem mandato judicial, sem nada. Depois, a soltaram no meio do caminho", diz a coordenadora. A ação levou muitos a fugirem da ocupação com medo de morrer. Maceió é uma cidade muito violenta, principalmente se você for jovem e negro", afirma.

Ela conta que, no dia anterior, nove viaturas haviam entrado na ocupação, verificado como estava a situação e ido embora sem incidentes.

"Entrar para quebrar coisas do pessoal e levar líderes sociais é inadmissível." A declaração é da secretária estadual da Mulher e dos Direitos Humanos de Alagoas, Maria José da Silva. Ela afirmou ao UOL que o governo repudia qualquer ato de violência.

"O governador Renan Filho já me ligou e pediu para eu acompanhar a situação, que ele quer ver esclarecida e resolvida. Temos uma ótima relação com os movimentos sociais. Nunca aconteceu uma situação como essa. Estamos engajados para entender o que ocorreu e cobrar punição", afirma.

De acordo com a secretária, foi marcada para a próxima segunda (30), uma reunião entre ela e o movimento, com a presença do comandante geral da polícia, do secretário adjunto de Segurança Pública e do deputado federal Paulão (PT-AL).

Em nota enviada ao UOL, a assessoria de comunicação da Polícia Militar de Alagoas informou que o Comando-Geral da Corporação, após receber informações do comandante do 5º Batalhão da PM, "determinou a abertura de um procedimento administrativo junto à Corregedoria-geral para que a conduta dos policiais na ocorrência envolvendo assentados que vivem no acampamento Dandara, em Maceió, seja devidamente apurada".

"A Polícia Militar reitera que sempre atua pautada pela legalidade e demais princípios constitucionais. A Corporação reforça que qualquer possível desvio ou excesso de conduta de seus agentes deve ser denunciado à Corregedoria para que haja a apuração dos fatos", diz a nota.

Funcionários do governo alagoano com os quais a coluna conversou, em caráter de anonimato, afirmam que a ação representa desobediência direta de agentes à autoridade de Renan Filho, que vem mantendo diálogo com movimentos sociais.

"A gente tem visto uma série de ataques estimulados, de algum modo, por falas do presidente da República. Essa atuação miliciana de policiais de Alagoas na ocupação é uma expressão disso, assustando crianças, botando arma na cara de mulheres, tocando terror nas pessoas, isso é a expressão dessa barbárie", afirma Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST.

"Se não houver nenhum tipo de punição em ações como essa, elas vão se normalizando, se tornando permitidas. Na próxima vez, pode ser que custe a vida de pessoas", avalia.

Post atualizado às 17h08, do dia 27/12/2019, para inclusão de posicionamento da Polícia Militar de Alagoas.

Leonardo Sakamoto