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Bolsonaro e o fogo: A depender da vítima, presidente dá resposta diferente

Incêndio destruiu o Museu Nacional, no Rio - Tânia Rego/Agêncai Brasil
Incêndio destruiu o Museu Nacional, no Rio Imagem: Tânia Rego/Agêncai Brasil
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

02/01/2020 18h39

O presidente demonstrou solidariedade a Luciano Hang, proprietário da rede de lojas Havan, pelo incêndio que consumiu uma réplica da Estátua da Liberdade, parte da decoração de sua loja, em São Carlos (SP), no último dia 30. Hang diz que o fogo foi criminoso e que ele foi vítima de um ataque terrorista.

O caso deve ser investigado e os responsáveis pelo vandalismo, devidamente punidos.

Isso reforça, contudo, a percepção de que Jair Bolsonaro segue governando para a faixa de 30% da população que aprova seu governo, segundo o Datafolha. E, mais especificamente, um naco radical, entre 12% e 15%, que está com ele para o que der e vier, defendendo-o de qualquer crítica e atacando opositores. Pois, ao mesmo tempo em que prontamente se solidarizou com o empresário, seletivamente se calou ou jogou o corpo fora diante de outros incêndios.

As redes sociais lembraram, por exemplo, que ele não prestou a mesma solidariedade quando a vítima foi o Museu Nacional, consumido pelo fogo junto com sua inestimável coleção, em setembro de 2018, no Rio de Janeiro. Mesmo que, depois, tenha tentado se explicar e botado a culpa na imprensa, a declaração do então candidato sobre o ocorrido tornou-se simbólica do que viria a ser seu governo: "Tá, e daí? Já tá feito, já pegou fogo, quer que eu faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre".

Achei por bem reproduzir o trecho da matéria de Gustavo Maia, do UOL, de 04 de setembro de 2018, que trouxe essa resposta e mostrou um Bolsonaro despreparado para lidar com a questão da preservação do patrimônio histórico, cultural e artístico do país.

Repórter do UOL: O senhor tem alguma proposta para a manutenção do patrimônio histórico?

Bolsonaro: Não, eu não vou responder você. Você estava no Rio ontem?

Repórter do UOL: Não.

Bolsonaro: Então me desculpa aqui, tá? Então me desculpa aqui. Olha, a administração toda é de gente filiada ao PSOL e do PCdoB. A indicação política leva a isso. Os partidos se aproveitam, vendem o seu voto aqui dentro, como regra, para que a administração seja deficitária e lucrativa para eles individualmente.

Repórter: Deputado, mas é porque o caso do museu no Rio causou uma grande mobilização nacional...

Bolsonaro: Tá, e daí? Já tá feito, já pegou fogo, quer que eu faça o quê? O meu nome é Messias, mas eu não tenho como fazer milagre.

Repórter: Se o senhor for eleito, qual é a proposta para que isso não se replique em outros patrimônios, como um museu tão importante como esse?

Bolsonaro: Não aceitar indicações políticas para essas... para todas as funções do Brasil.

Repórter: Mas o problema ali é falta de dinheiro, é falta de manutenção.

Bolsonaro: Mas se não tem dinheiro, ué, paciência. Agora dinheiro para Queer Museum, aquele negócio de homem nu para criança tocar não falta. Para escrever a vida de José Dirceu também não falta da Lei Rouanet.

Repórteres: A gente está perguntando sobre propostas para o senhor. Recursos para museus...

Bolsonaro: Mas havendo recursos no projeto do orçamento, se eu for presidente eu vou pegar o orçamento pronto, ninguém pretende contingenciar nada, tá ok?

Repórter: O senhor diz que a gente não pergunta sobre proposta...

Bolsonaro: Vocês querem me jogar contra a cultura...

Repórter: Não, deputado, a gente só quer saber a proposta do senhor, deputado.

Bolsonaro: A cultura é importante. Eu quero saber de cultura, a cultura raiz. Recursos, sim, via Lei Rouanet, para artista que está iniciando a carreira, música caipira, sertaneja, é por aí... Não é para esses globalistas ficarem mamando na nossa teta, não....

Um grupo de pessoas, sem o mínimo de pudor, celebrou nas redes sociais a queima do acervo, pois ele contaria uma história mentirosa, que não se encaixa em certas visões de mundo. Talvez o Museu Nacional, ao se deparar com o momento atual do país, em que o conhecimento científico parece valer menos que achismos e opiniões sem embasamento e no qual fatos históricos são tratados como "notícias falsas" diante das certezas anônimas e absolutas das redes sociais, tenha simplesmente queimado mais rápido, por conta do desgosto.

Uma instituição como o Museu Nacional guarda o passado e, dessa forma, ajuda a construir o presente e projetar o futuro. Bolsonaro faz um governo em que tenta ressignificar o passado para recriar o presente e traçar um futuro de acordo com seus valores e princípios, anacrônicos costumes e comportamentos e anticientífico.

Ironicamente, em 17 de abril de 2019, Bolsonaro lamentou o fogo que destruiu parte da catedral de Notre-Dame, em Paris, de uma forma não dispensada ao Museu Nacional. Usou o comentário para agradar sua base cristã.

"Em nome dos brasileiros, manifesto profundo pesar pelo terrível incêndio que assola um dos maiores símbolos da cultura e da espiritualidade cristã e ocidental, a catedral de Notre-Dame, em Paris. Neste momento sombrio, as nossas orações estão com o povo francês", postou no Twitter.

Em outro caso mais recente, ele manteve um incômodo silêncio sobre o ataque à sede da produtora do Porta dos Fundos, no dia 24 de dezembro. A tentativa de incendiar o local ocorreu após ameaças por conta de seu especial de Natal - um programa de humor sobre o aniversário de Jesus.

A polícia apontou Eduardo Falzi Richard Cerquise como suspeito de ter lançado os coquetéis-molotov, que quase atingiram o segurança. O empresário, filiado ao PSL, ex-partido do presidente, está foragido. Mas, mesmo assim, postou um vídeo nesta quarta (01), chamando os integrantes do grupo de "criminosos, marginais, bandidos".

E não é possível deixar de citar que Bolsonaro não se compadeceu quando a Amazônia ardeu em chamas. Pelo contrário, o governo federal estimulou a devastação na região, ao longo de 2019, com as promessas de colocar um cabresto na fiscalização feitas a madeireiros, grileiros garimpeiros e pecuaristas. Sua reação, diante das reclamações dentro de fora do país, não foi de crítica aos verdadeiros responsáveis por atear fogo na floresta, mas culpar indígenas, ribeirinhos, camponeses, imprensa, brigadistas, ONGs e até o ator Leonardo DiCaprio pelas imagens de nuvens de fumaça que correram o mundo.

Bolsonaro precisa mostrar que é o presidente de todos os brasileiros e não apenas daqueles que concordam com ele. Isso significa agir de forma republicana, lembrando-se que foi eleito pelo voto de partes dos eleitores para gerir toda a coisa pública. A questão é saber se ele quer isso mesmo e está preparado para a tarefa.

Leonardo Sakamoto