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Leonardo Sakamoto


Toffoli lembrou a radicais que fé resiste a 46 minutos de Porta dos Fundos

Cena do especial de natal da Netflix "A Primeira Tentação de Cristo", feita pelo grupo Porta dos Fundos - Divulgação
Cena do especial de natal da Netflix 'A Primeira Tentação de Cristo", feita pelo grupo Porta dos Fundos Imagem: Divulgação
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

09/01/2020 21h15

O que mais admira na, agora falecida, censura do desembargador Benedicto Abicair ao especial de Natal do Porta dos Fundos é a fragilidade do Deus presente no texto de sua decisão. Pois o magistrado do Tribunal de Justiça do Rio agiu como se 46 minutos de humor fossem capazes de derrubar a cristandade.

Ao cancelar a absurda censura, nesta quinta (9), atendendo a um recurso da Netflix, plataforma que hospeda o episódio, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, manifestou esse mesmo estranhamento.

"Não se descuida da relevância do respeito à fé cristã (assim como de todas as demais crenças religiosas ou a ausência dela). Não é de se supor, contudo, que uma sátira humorística tenha o condão de abalar valores da fé cristã, cuja existência retrocede há mais de 2.000 anos, estando insculpida na crença da maioria dos cidadãos brasileiros", afirmou.

Muitos clamaram alucinados ao Estado para que passasse por cima da Constituição Federal e calasse quem traz uma imagem da figura de Jesus "diferente da realidade" - prece que foi atendida por Abicair. Mas o que é real? Aquela imagem de Cristo, com pele branca, nariz afilado e olhos azuis, que não representa um judeu de dois mil anos atrás?

Duas perguntas são importantes diante da comoção: a fé cristã é algo tão frágil que pode ser corroída por simples humor? E seu Deus é tão vulnerável que demanda que neofascistas joguem coquetéis-molotov ou abram ações judiciais de censura em seu nome? Definitivamente isso não condiz com o Jeová de temperamento forte, que não terceirizava vinganças, do Velho Testamento, nem com o Deus de amor e empatia do Novo Testamento. O que faz crer que falta amor no mundo sim, mas ainda falta interpretação de texto bíblico.

Se houver alguma entidade suprema e sobrenatural - e eu, particularmente não acredito que exista uma - ele ou ela deve morrer de vergonha da sua criação humana quando observa atos como um pedido de censura baseado em uma interpretação diferente da figura de seu filho. À decisão de Abicair, soma-se à do juiz Luiz Antônio Campos Júnior, da 1a Vara Cível de Jundiaí, por exemplo, que censurou o espetáculo "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu". A peça coloca no papel do messias uma mulher transexual. Ambos os magistrados veem a diferença como ataque à fé.

Parte dos ultraconservadores que saíram do armário resolveram adotar a censura, a ameaça e a agressão como instrumentos de batalha. A ignorância de parte das pessoas sobre o que não conhece destila medo que gera ódio e domina o debate público, nivelando a vida por baixo. Enquanto isso, o governo Bolsonaro traz palavras de incentivo aos violentos que querem deixar a casinha.

Escrevi neste espaço, em 2015, que se viesse novamente ao mundo, Jesus seria mulher, negra e transexual. Quase apanhei na rua por conta disso por pessoas que, não familiarizadas com a troca de ideias e o diálogo, acham que proferir qualquer coisa que vá contra sua fé significa um ataque à sua dignidade.

Na verdade, porém, esse desejo de silenciar não prova fidelidade a Deus, mas a líderes religiosos que não desejam ajudar a iluminar vidas, mas mantê-las à sua sombra. Ao mesmo tempo, demonstra a fragilidade de sua própria fé ou da pouca crença que entregam ao poder de seu criador.

Acusam a opinião de terceiros de ser discurso de ódio - o ódio que, na verdade, são elas que promovem ao tentar calar vozes que não pedem a aniquilação do outro.

Enquanto isso, parlamentares no Congresso Nacional bradam, indignados, por conta de manifestações artísticas, exigindo sua censura. Muitos sobem às tribunas para reclamar que grupos "contrários às leis de Deus" estão conquistando espaço - acusando-os de fomentar o ódio que, em verdade, eles sentem ao incitar morte e destruição.

Se houver um Deus, ele ou ela não morrerá de vergonha por causa daqueles que fazem humor ou que transgridem padrões. Mas por conta dos que lançam preces e cantam musiquinhas para louvar seu nome para, logo depois, censurar, ofender, cuspir, bater, esfolar e matar também em sua honra.

Nessa hora, esse Deus ou essa Deusa deve experimentar um sentimento louco de culpa somado à vergonha alheia. Pois pensa: "Que entidade sou eu em que meus seguidores acham que preciso que a imposição do silêncio seja feita em meu nome?"

O mais irônico é que, considerando que Jesus foi transgressor em sua época, se ele voltasse à Terra seria tudo aquilo que é considerado inferior, marginal, blasfêmico ou de segunda classe.

Ele ou, mais provavelmente, ela seria chamada de mendiga e de sem-teto vagabunda, olhada como operária subversiva, alcunhada como agressora da família e dos bons costumes, violentada e estuprada, rechaçada na propaganda eleitoral obrigatória em rádio e TV, difamada nas redes sociais, censurada pela Justiça. Levaria porrada daqueles que se sentem os ungidos pelo divino, finalizada como comunista mesmo não sendo, linchada num poste pela população em nome da fé e das tradições. E, ao final, alguém ainda tiraria uma selfie ao lado de seu corpo morto para postar no Insta.

Se Jesus assim nascesse, levaria chutes dos hoje autointiulados sacerdotes do Templo - certos magistrados e promotores e alguns homens e mulheres de bem. Supostos representantes dos interesses de Deus na Terra que afirmam lutar pelo direito de expressarem suas crenças, quando querem o privilégio de vomitarem seu ódio diante daquilo que acham que pode ameaçar seu controle sobre o povo.

Tudo isso já foi dito aqui antes espaço. Mas era importante lembrar, porque o discurso de ódio continua transformando a massa em turba e provocando distorções no entendimento sobre as palavras que estão na origem dessa fé.

Estudei em uma escola adventista por nove anos e, ao mesmo tempo, participei ativamente da vida na igreja católica na periferia onde cresci. Li e reli a bíblia e nunca encontrei todo esse sentimento ruim. OK, tem coisas no Levítico, mas se for levar ao pé da letra e sem o contexto histórico, cristãos deveriam passar longe de camarão e de emprestar dinheiro a juros.

O discurso de intolerância que grassa na boca de muita gente não está nos quatro livros do Evangelho cristão. Intolerância presente em perfis nas redes sociais que consideram um absurdo um messias gay ou uma messias mulher e trans enchem a boca para falar que a solução para a criminalidade é "Bandido bom é bandido morto" e, diante do atendimento a uma pessoa em situação de rua, grita "Tá com dó? Leva para casa".

Ficam revoltados com um Jesus gay, mas não com escravidão, trabalho infantil, fome ou com o tamanho do salário mínimo.

As interpretações possíveis sobre o divino não são monopólio de ninguém. Durante muito tempo, levamos pessoas à fogueira por divergências assim. Infelizmente, parece que não aprendemos nada em 500 anos e continuamos lançando fogo para "purificar" os diferentes.

Disse o desembargador: "É fato incontroverso que toda ação provoca uma reação, eventualmente de caráter violento que, mesmo sem vítimas físicas, causa indignação por parte de quem a sofreu, seus admiradores ou seguidores", praticamente justificando os coquetéis-molotov lançados contra a produtora do Porta dos Fundos na véspera de Natal por um sujeito que, de tão corajoso, fugiu para a Rússia.

Liberdade de expressão não é algo absoluto, como nenhum direito é. Mas quem está incitando a violência contra terceiros neste caso não são os humoristas.

O fato é que se as pessoas entendessem por uma forma mais humana o que significa amar o seu semelhante como a si mesmo, dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e todo o restante, entenderíamos que toda essa censura não faz sentido algum. O que significa amar alguém de verdade? E o que significa submeter alguém à minha vontade?

Por isso continuo achando a passagem mais legal dos Evangelhos o livro de Lucas, capítulo 23, versículo 34: "Pai, perdoai. Eles não sabem o que fazem".

Leonardo Sakamoto