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Leonardo Sakamoto


Armas de Bolsonaro contra crise são "mamadeira erótica" e "golden shower"

9.mar.2020 - Presidente da República, Jair Bolsonaro, acompanhado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, visitam o estúdio do artista Romero Britto - Alan Santos - 9.mar.2020/Divulgação/Presidência da República
9.mar.2020 - Presidente da República, Jair Bolsonaro, acompanhado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, visitam o estúdio do artista Romero Britto Imagem: Alan Santos - 9.mar.2020/Divulgação/Presidência da República
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

10/03/2020 17h13

"Problemas acontecem." Jair Bolsonaro minimizou, assim, os impactos econômicos do coronavírus no Brasil e no mundo, aproveitando também para culpar a imprensa pela queda, desta segunda (9), do preço global do petróleo. Para ele, há momentos de crise, mas "é muito mais fantasia".

O fechamento de fábricas na China e a desaceleração mundial, com a consequente redução de encomendas de matérias-primas ao Brasil, não são uma ficção criada pela imprensa. Mas para um presidente acostumado a propagar desinformação, imagino que seja difícil distinguir fato de fantasia.

No que pese exista uma boa dose de paranoia global por conta da pandemia (que a Organização Mundial da Saúde evitar chamar de pandemia), cabe a ele e a seu governo estarem preparados para que o país sofra o menos possível. Bolsonaro não é o culpado pelo coronavírus, nem pela crise do petróleo. Mas é o responsável por garantir que o paciente - ou seja, a economia brasileira - seja capaz de resistir firme ao baque trazido pelos impactos econômicos externos.

O derretimento da Bolsa de Valores brasileira, nesta segunda, com uma queda mais acentuada que a de outros mercados, mostra - contudo - que nossos fundamentos não são tão sólidos e a confiança é baixa. Parte das perdas foram recuperadas, nesta terça, após anúncios de medidas para suavizar a crise por parte de governos de outros países, mas o sacolejo mostrou como será esburacada a estrada que teremos que trilhar.

Ao invés de lidar com isso de forma racional, o presidente repete o que faz de melhor - joga cortinas de fumaça para entreter sua claque e distrair os críticos.

Desta vez, aproveitou para pegar carona no linchamento público de Drauzio Varella e soltou acusações infundadas de fraude nas eleições de 2018. Da mesma forma que, no ano passado, enquanto a Amazônia queimava, disparou contra o ator Leonardo DiCaprio, organizações não-governamentais, indígenas e países estrangeiros. Em ambos os momentos, ataques serviram para esconder sua incompetência.

Bolsonaro já mostrou que conhece agricultura, principalmente laranjas de Minas, bananas no Alvorada e açaí da Wal, mas não entende de economia. Nem sabe onde é o endereço dela, nem seu sobrenome. Seu negócio não é promover crescimento do PIB, gerar empregos formais e desenvolver o país em meio a um cenário turbulento, mas garantir a sobrevivência de seu clã, sequestrando instituições de controle e monitoramento da República para evitar incômodos a ele e sua família. E entreter o ódio de seus fãs com ficções, como a mamadeira de piroca, a fim de promover a sua guerra cultural.

O naco racional do Ministério da Economia, representado pelo secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, afirmou que a situação - antes mesmo do coronavírus - já lhe tirava o sono. "Estou muito preocupado, não durmo tranquilo. Não é normal um país como o Brasil crescer 1% ao ano. Isso causa frustração em vários segmentos da sociedade", desabafou.

Mas não o sono do ministro Paulo Guedes - que aposta tudo na continuidade das "reformas" porque não acredita em investimento público. E o de Bolsonaro - que não entenderia como ajudar nem se o artista plástico Romero Britto desenhasse para ele.

Qual será o cenário econômico do país em julho, antes do período eleitoral, caso a equipe econômica deixe de enfrentar a crise com os instrumentos fiscais, monetários e cambiais adequados e insista em mudanças que terão impacto apenas no longo prazo? Desconfio que teremos mais mamadeira de piroca e golden shower, aliadas a ataques a jornalistas (de preferência, mulheres), baixo crescimento e desemprego.

A democracia? Segue viva, mas cozinhando lentamente em banho-maria.

Leonardo Sakamoto