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Coronavírus mata há dois meses, mas Guedes pede mais dois dias para plano

12/03/2020 - O presidente Jair Bolsonaro de máscara de proteção fala em live sobre coronavírus - Reprodução/Facebook
12/03/2020 - O presidente Jair Bolsonaro de máscara de proteção fala em live sobre coronavírus Imagem: Reprodução/Facebook
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/03/2020 13h58

Foi necessário que Jair Bolsonaro realizasse um teste para coronavírus e um de seus principais assessores tivesse contraído a doença para que ele percebesse que a pandemia não é uma "fantasia" inventada pela imprensa. Contudo, por mais que o Ministério da Saúde tenha sido diligente até agora, o país perdeu um tempo precioso devido à arrogância do Palácio do Planalto e do Ministério da Economia.

Antes de mais nada, é preciso dizer que o presidente da República tem direito a suas opiniões e não a seus próprios fatos. E, como chefe da nação, não pode propagar desinformação, como fez no evento a apoiadores em Miami, nos Estados Unidos, quando desdenhou da pandemia. A questão é que Bolsonaro é tutelado por um grupo de pessoas especializadas em corrigir suas bobagens - inclusive as bobagens que são nocivas a ele próprio.

O teste do presidente deu negativo. O que é bom, pois a sua falta de apreço aos direitos fundamentais deve ser derrotado sim, mas na política, nas ruas, nas urnas. Infelizmente, muitos brasileiros e as contas do país não terão a mesma sorte. Ele, como tem babás, pode dar uma banana às informações sobre a gravidade do coronavírus que circulam na imprensa, tem alguém que limpa a sujeira. Seu governo, contudo, não tinha esse direito.

Se for infectado, o presidente terá o melhor tratamento de saúde do país à sua disposição e as finanças de sua família estão protegidas, seja pela garantia de salário até 2022, seja pela eficiência passada de Fabrício Queiroz. Mas a área de saúde do governo corre atrás de recursos para ampliar o número de leitos, quando isso deveria estar à sua disposição desde que o surto começou. E não há algo que possa ser chamado de estratégia nacional para enfrentar o impacto econômico do coronavírus. Apenas um ministro que repete "reformas, reformas, reformas!", como aqueles coros de tragédias gregas.

A primeira morte por Covid-19 ocorreu em 11 de janeiro, o primeiro caso fora da China, em 13 de janeiro, a primeira paciente nos Estados Unidos, em 17 de janeiro, a confirmação de transmissão de pessoa a pessoa, em 20 de janeiro. Com base na transparência de dados da Organização Mundial da Saúde e considerando o histórico de outras epidemias, era possível a qualquer país começar a desenvolver mecanismos para se preparar para o choque.

O Brasil de Paulo Guedes não fez isso. Pressionado a apresentar um plano, divulgou uma Lista de Desejos, com projetos de reformas que, se aprovados, não serão úteis para enfrentar a tempestade. E jogou a responsabilidade no colo de deputados e senadores, que ficaram surpresos com a falta de preparo do governo. Rodrigo Maia, presidente da Câmara, disse, em entrevista à Folha de S.Paulo, que Guedes não tinha algo pronto ou guardou para si.

Foi a forma educada de dizer que ele não tinha ideia do que fazer.

Diante de uma das maiores provas de inaptidão da história recente, o ministro da Economia informou à imprensa, nesta sexta (13), que "estamos fazendo o programa de combate ao coronavírus" e que "estamos reagindo em 48 horas". Esse gerúndio é inacreditável. Como assim "estamos"? Ele teve dois meses para isso.

Administrar a economia não é preencher uma grande planilha de Excel, esperando que, com as entradas corretas, que virão no momento certo, o resultado da equação chegue ao número desejado. É dirigir um carro, com pneu careca, por uma estrada esburacada, com chances de tempestade, neblina e deslizamentos de terra, com pouca gasolina e sem dinheiro para comprar mais, só um cartão de crédito limitado e sob o risco contínuo de ser assaltado. Se ele não se considera apto para guiar por essa trilha, que peça exoneração.

As medidas que ele está divulgando, agora, que passam pela liberação de recursos para pagamento adiantado de 13º de aposentados e pensionista, facilitação das exportações e mais tempo para recolhimento de impostos ajudam. Mas o atraso em uma ação estruturada de enfrentamento e a falta de inclusão de ações que envolvam investimento público implicarão um custo ao Brasil que não poderemos pagar.

Como já disse aqui, bons governantes estão enfrentando a pandemia ocupando o lugar da razão, longe da histeria e do desdém, usando para isso o conhecimento da ciência e as informações da imprensa. Tudo aquilo que Bolsonaro e Guedes não fizeram.

Em tempo: A maior parte de seus seguidores não se importa com esses cavalos de pau retóricos dados por seu líder que, em um dia, chama do coronavírus de "fantasia" e, em outro, aparece com máscara em vídeos nas redes sociais. Mas conforta sabe que há um naco terraplanista de seguidores do presidente que acreditam que a doença é uma grande conspiração globalista. Como o coronavírus tem um jeitão de praga medieval, apesar de bem menos severo, nada mais justo que vir junto com atores e figurantes medievais.

Leonardo Sakamoto