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Irresponsável, Bolsonaro ignora coronavírus e brinca com saúde da população

15.mar.2020 - Movimentação durante manifestação Pró Bolsonaro na praia de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, neste domingo, 15 - Saulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo
15.mar.2020 - Movimentação durante manifestação Pró Bolsonaro na praia de Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, neste domingo, 15 Imagem: Saulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/03/2020 15h20

Demonstrando que sua agenda política pessoal é maior do que sua preocupação com a saúde da população, o presidente Jair Bolsonaro encontrou fãs, trocou apertos de mão, segurou celulares para selfies e elogiou que seus seguidores tenham ido aos atos contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, realizados neste domingo (15). Profissionais de saúde têm, desesperadamente, pedido às pessoas que evitem contato social a fim de retardar a pandemia de coronavírus.

Passando por cima das recomendações do próprio Ministério da Saúde, que pede a todos que tenham ido ao exterior que fiquem sete dias em suas residências, ele deixou o isolamento e foi confraternizar com seus eleitores.

O presidente da República torna-se, dessa forma, inimigo do próprio sistema de saúde do país, que tenta explicar às pessoas que elas devem evitar aglomerações a fim de reduzir a velocidade da infecção.

Tenta-se impedir um "tsunami" de gente procurando postos e unidades básicas de saúde e hospitais, tornando impossível atender aos afetados pelo Covid-19 e, ao mesmo tempo, cuidar de pacientes de outras doenças e emergências. Se os infectados vierem em "prestações", o sistema ficará menos sobrecarregado e não será necessário escolher quem será atendido ou não. Ou seja, no limite, quem vive e quem morre.

Bolsonaro prova mais uma vez que pensa somente em si, em sua família e no naco de seus fãs que pertencem à classe mais abastada. Pois se forem infectados, terão o melhor tratamento de saúde do país à sua disposição. Coisa que não vai se acontecer com quem depende do SUS, com leitos e respiradores em número insuficiente para fazer frente à crise.

O coronavírus não tem preferência por pobres ou ricos, mas o Brasil, sim, ostentando um déficit de estrutura de atendimento no sistema público, que é responsabilidade de todos os governos até agora - inclusive o dele.

"As consequências do ato de Bolsonaro hoje vão além do ataque à democracia. Trata-se de uma irresponsabilidade sem tamanho, uma ameaça à vida das pessoas, expostas a um vírus que tem matado milhares ao redor do mundo", afirmou o líder do PSB na Câmara dos Deputados, Alessandro Molon (RJ) em nota à imprensa. "É isso que acontece quando se governa pensando em concentrar e manter seu próprio poder."

Ao sair à rua, o presidente também parece rir da cara de seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que tem sido diligente e responsável em meio ao caos. Sua pasta avisou que se não forem tomadas medidas para restringir o contato social, casos vão dobrar a cada três dias.

Ao menos, seis pessoas que estavam em um evento que reuniu as comitivas de Donald Trump e de Jair Bolsonaro, na Flórida, já deram positivo para coronavírus. O primeiro teste do mandatário brasileiro, segundo ele mesmo, deu negativo - mesmo resultado de seu colega-norte-americano. Mas a infecção pode produzir falsos negativos, ainda mais na fase em que está assintomática. Por isso, ele foi recomendado a monitorar a saúde e estava em isolamento.

O presidente, que chegou a conclamar as pessoas a irem às ruas para o 15 de março, acabou fazendo um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV recomendando que os organizadores adiassem as manifestações com a ampliação dos casos de coronavírus. Usou até máscara cirúrgica em uma live no Facebook, enquanto não saía o resultado do seu exame, e também desincentivou a ida ao evento. Agora, vai à rua abraçar pessoas, dar apoio a aglomerações e mau exemplo.

Toda manifestação democrática que não peça o fechamento de instituições ou a prisão de deputados, senadores e ministros do STF tem o direito de existir. O problema é que os atos foram convocados com base na premissa no, agora icônico, "foda-se" que o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, sugeriu que o presidente mandasse ao Congresso.

Em um momento em que a sociedade faz um esforço para fechar as portas de escolas, universidades, shows, eventos esportivos, cultos religiosos, e se recolher, o presidente vem à rua para apoiar que seus fãs se juntem a fim de gritar "mito". Pode ter ajudado a rifar, dessa forma, a qualidade de vida de muitos que vão passar a achar que estamos vivendo a normalidade sanitária no Brasil e repetir seu exemplo.

O governante racional assume uma posição que nem é de histeria, nem de descaso neste momento. Bolsonaro foi além, ele objetivamente está colocando a sociedade em risco. Merece o nosso reconhecimento. Após ser o primeiro presidente no mundo a chamar uma pandemia mortal de "fantasia", agora se torna o primeiro ao agir contra o seu combate.

Leonardo Sakamoto