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"Periferia vai se tornar um cemitério se prevalecer posição de Bolsonaro"

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/03/2020 16h09

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro questiona os números de mortos por Covid-19 em São Paulo, lideranças sociais que atuam com a parcela mais vulnerável da população anunciam que a tragédia social causada pela pandemia já começou. E que se o negacionismo atrapalhar as medidas de isolamento social e a transferência de renda básica para sobrevivência desse grupo, não haverá apenas mortes pelo coronavírus, mas caos social.

Na tarde desta sexta (27), Bolsonaro afirmou, em entrevista a José Luiz Datena, na TV Bandeirantes, que não acredita no número de óbitos registrados pela pandemia de coronavírus em São Paulo. "Está muito grande para São Paulo. Tem que ver o que está acontecendo aí. Não pode ser um jogo de números para favorecer interesse político." Neste sábado, o Estado registrou 84 das 114 mortes.

"Ele tá achando grande? Tem muito mais gente morrendo por suspeita de coronavírus do que está sendo divulgado. Ele diz isso porque não faz ideia do que acontece aqui", afirma uma liderança de uma comunidade pobre na região Sul de São Paulo, que pediu para não ser identificada. "Se ele não quer ajudar, deveria não atrapalhar."

O presidente tem atacado as medidas de isolamento social que vêm sendo adotadas para retardar a velocidade da infecção e defendido o que chama de "isolamento vertical" - com a segregação de idosos e pessoas com risco aumentado devido a doenças pré-existentes.

Favelas e comunidades pobres contam com alto adensamento populacional, com casas de cômodo único, em que dormem famílias inteiras. Nesse contexto, não é possível manter distância sanitária, isolando os idosos, por exemplo. O que, inexoravelmente, leva à contaminação de todos se um dos membros for infectado.

"Se o isolamento social for quebrado, vai ser um rastilho de pólvora. Periferia de São Paulo vai se tornar um cemitério a céu aberto se prevalecer a posição de Bolsonaro", afirma Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e morador do Campo Limpo, bairro periférico da capital paulista.

"Já se prevalecer o que dizem os infectologistas, ela pode ser menor, mas teremos muitos mortos de qualquer jeito. A questão, aqui na periferia, é se morrerão centenas, milhares ou dezenas de milhares", afirma.

Um médico que está atendendo pacientes com Covid-19 em hospital público de São Paulo afirmou à coluna que os pronto-socorros e as UTIs já estão lotando por causa da pandemia. "Não estamos falando de sintomas leves. É grande a quantidade de pacientes que chegam diariamente por dificuldade respiratória. Isso não é uma epidemia de gripe, mas de pneumonia grave." Diz que os hospitais públicos caminham rápido para o colapso, mesmo que o presidente não acredite nos números. "Simplesmente não teremos como internar."

Hora da partilha, não da acumulação

O padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e vigário da paróquia São Miguel Arcanjo, em São Paulo, sempre foi alvo de ataques intolerantes por defender esse, que é um dos grupos mais excluídos. Agora, em conversa com a coluna, disse que a pastoral está recebendo bastante solidariedade.

"Parece que muita gente enxergou mais a população de rua. Com a cidade mais vazia, as pessoas perceberam melhor a presença daqueles que já estavam no cenário urbano, mas eram imperceptíveis ou ignorados", explica.

Padre Júlio receia que passemos da emergência de saúde para o caos social em pouco tempo uma vez que o país não se preparou para garantir o sustento de trabalhadores informais e formais e desempregados.

Defende não apenas a chancela urgente pelo Senado Federal do projeto de renda básica, aprovado pela Câmara, nesta quinta (26), mas que ela seja repassada no dia seguinte. Diz que cada dia que passa, é mais sofrimento para a camada da população que está sem renda.

Para financiar isso, defende a taxação de grandes fortunas, ou seja, de bilionários e multimilionários.

"Antes não tinha uma dor que atinge a todos, a dor era seletiva. Mas a dor que, agora, atinge a todos chega de maneira pior aos pobres. Portanto, a solução não passa por cortar salário de servidor público, de trabalhador afastado, mas taxar grandes fortunas", explica.

"Transferir renda para a população de ambulantes, catadores, moradores de rua, mulheres com crianças sozinhas, pessoas que estão absolutamente desprotegidas."

E resume: "não é mais a hora da acumulação, é hora da partilha".

O MTST realiza uma campanha de arrecadação de dinheiro para compra e distribuição de alimentos e materiais de higiene pessoal, desde o dia 26 de março, com mais de 300 voluntários fazendo entrega diária em oito capitais. "Isso funciona como termômetro. A procura por ajuda da campanha tem aumentado na medida em que avançamos na crise", explica Boulos.

"Se a renda básica for implementada sem burocracia, as pessoas não ficarão famélicas. Contudo, se houver dificuldade para chegar às pessoas, teremos convulsão, mais crise sanitária e caos social.

Falta comida, falta dinheiro, falta moradia decente, falta saneamento básico, falta de prioridade em políticas públicas. Para além dos déficits conhecidos, que se tornam mais urgentes neste momento de pandemia, as lideranças apontam que falta tempo. Neste momento, ele está correndo contra a vida dos mais vulneráveis.

"Por que o governo deixou para a última hora para lembrar que o trabalhador existe? Me diz você, que é jornalista. Os ministros e o presidente não sabiam que essa desgraça ia acontecer? Porque não deixaram tudo pronto? Estavam fazendo o quê, meu Deus?", desabafa outra liderança comunitária da Zona Leste de São Paulo.

Leonardo Sakamoto