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Bolsonaro ataca governadores e segue apostando na mentira como método

Frame do vídeo com o pronunciamento de Bolsonaro do dia 31.03.20 - Reprodução/Youtube
Frame do vídeo com o pronunciamento de Bolsonaro do dia 31.03.20 Imagem: Reprodução/Youtube
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/04/2020 11h39

As mentiras que o presidente Jair Bolsonaro conta para governar em tempos de paz (excitando seguidores, atacando a imprensa, emparedando instituições, confundindo com narrativas antagônicas e criando cortinas de fumaça para a população) têm consequências diferentes em tempos de guerra contra uma pandemia assassina.

Neste momento, "fatos alternativos" significam mortes e fome no curto prazo. E é isso o que a desinformação que Bolsonaro espalhou até aqui sobre o coronavírus pavimentou: morte de quem acreditou no presidente que poderia ir para a rua viver sua vida normal e fome de trabalhadores informais que estão desassistidos pela demora na transferência de recursos da renda básica.

Muitos analisaram o pronunciamento em cadeia nacional em rádio e TV, da noite desta terça (31), que teve menos desinformação que o de costume, como uma mudança de comportamento. Contudo, postagem do presidente neste Primeiro de Abril já lembrou que ele usa a mentira como método. E o que o aceno ao bom senso de ontem foi apenas um recuo tático em meio à sua estratégia de guerra.

Bolsonaro divulgou vídeo em que uma pessoa relata que a Ceasa, em Belo Horizonte, estava desabastecida. Usou o conteúdo para criticar prefeitos e governadores que adotaram medidas de isolamento e distanciamento social contra o coronavírus. Após ser alvo de intensas criticas, apagou o vídeo, reconhecendo o erro. Mas o estrago da difusão da mentira já estava feito, pois um desmentido nunca vai tão longe quanto o boato nas redes sociais.

"Não é um desentendimento entre o presidente e ALGUNS governadores e ALGUNS prefeitos. São fatos e realidades que devem ser mostradas. Depois da destruição não interessa mostrar culpados", postou Bolsonaro junto com o vídeo de hoje. O repórter Pedro Bohnenberger, da rádio CBN, foi até a central, nesta quarta, e mostrou que há produtos até em excesso e que o vídeo divulgado pelo presidente foi gravado em um sábado, dia de menor movimento. Seria como alguém mostrar que há crise econômica por conta de uma rua de comércio vazia às 4h da madrugada.

Isso não foi descuido, mas método. Em 28 de outubro do ano passado, um vídeo comparando o STF e outras instituições a hienas querendo atacar Bolsonaro foi postado em suas redes sociais. No dia seguinte, pediu desculpas pelo vídeo. Mas a senha havia sido dada. No dia 30, manifestantes cercaram e bateram no carro do presidente do STF, Dias Toffoli, chamando-o de hiena.

O que parece uma esquizofrenia, na verdade também é método. Ele divulga mensagens diferentes para grupos diferentes, para contenção ou mobilização, usando diferentes canais.

Na maior parte do tempo, suas contas pessoais são destinados a manter excitada a horda de fãs e para aprofundar a ultrapolarização. Mas também usa canais oficinais, como cadeia nacional e rádio e TV ou contas do governo no Twitter e no Facebook para o mesmo fim. Aliás, propagar desinformação que coloque em risco a saúde e a vida de pessoas como ele tem feito seria, em uma democracia saudável, crime de responsabilidade. Mas, no Brasil, segue o jogo.

Neste momento, há uma crescente pressão de insatisfação por seu comportamento de terraplanista biológico durante a crise. Bolsonaro está sendo visto como inimigo global no combate à pandemia, panelas tilintam diariamente no país, ministros importantes o tratam como pária, o apoio a ele nas redes sociais está mais envergonhado. O recuo desta terça diante da pressão, contudo, não representa uma transformação.

O presidente não abandonou o combate ao isolamento social - apontado pela Organização Mundial da Saúde, pelo Ministério da Saúde, por médicos e cientistas como o caminho a seguir para retardar o coronavírus e garantir que hospitais não entrem em colapso. Apenas adaptou-se momentaneamente à circunstância. Vai tatear o ambiente.

Com medo da recessão que, inevitavelmente, a pandemia trará, e o significado isso par suas pretensões políticas, diz que quer garantir vidas e empregos. Mas garante-se empregos através de medidas de ajuda para pagamento de salários - política que seu governo começou tarde e avança em passo de tartaruga. E não criticando prefeitos e governadores que tiveram a coragem que ele não teve de tomar as medidas necessárias.

Se acreditar que pode continuar a apostar na mentira como método de governo pode se surpreender quando tropeçar nas montanhas de cadáveres de brasileiros que, infelizmente, estão ali à frente.

Como o país não aguenta esse caminho, Bolsonaro terá que ser contido de forma firme pelo Congresso Nacional e pelo Supremo Tribunal Federal.

O problema é que um presidente tido como café com leite, que ninguém obedece, visto como o tio amalucado do jantar de Natal, que demanda energia para ser contido, não é o que o país precisa para atravessar e se reerguer de uma crise sem precedentes. A maioria da Câmara e do Senado não vão falar de impeachment agora, em meio às votações para amenizar o impacto do coronavírus. Mas, uma hora, o vírus vai embora.

Leonardo Sakamoto