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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro, que não acredita na ciência, diz que falta humildade a Mandetta

Máscara N95, usada por Bolsonaro, é uma das mais avançadas, mas não protege os olhos - Reuters
Máscara N95, usada por Bolsonaro, é uma das mais avançadas, mas não protege os olhos Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

02/04/2020 20h54

O presidente Jair Bolsonaro - que menosprezou o conhecimento de cientistas e médicos, agindo como se soubesse mais sobre o coronavírus do que a Organização Mundial da Saúde e os líderes de todos os países do mundo juntos - reclamou que está faltando "humildade" ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Bolsonaro, que chamou a pandemia de coronavírus de "fantasia", "histeria", "gripezinha" e "resfriadozinho" e disse, novamente nesta quinta (2), que ela "não é tudo isso que estão pintando", reclamou que Mandetta "teria que ouvir um pouco mais o presidente da República".

Nas últimas 24 horas, o país registrou mais 58 mortos por Covid-19. O próprio Ministério da Saúde avisa que esse número é subdimensionado e há muito mais casos e mortos que não foram identificados devido à falta de testes. Isso representa um óbito a cada 25 minutos. O número é grande em termo de perdas humanas, mas pequeno em se tratando desta pandemia. Ainda estamos no começo. Há projeções que mostram que chegaremos a mais de uma morte por minuto.

Como o ministério vem agindo de forma técnica, o impacto será menor do que se a saúde do país estivesse nas mãos de Bolsonaro. Nesse caso, o coronavírus causaria centenas de milhares, talvez milhões de mortos por aqui.

"Não pretendo demiti-lo no meio da guerra", disse o presidente, antecipando que fará isso quando puder.

É uma guerra pitoresca. Pois o capitão, enlouquecido, quer que sua tropa empurre população em direção ao abismo. Ela ignora suas ordens e caminha lentamente no sentido contrário. Como vingança, promete punir seus subordinados que fizeram a coisa certa.

O mais deprimente é que uma parte do povo, que está sendo empurrado para a morte, aplaude o capitão.

Como o presidente disse que o nazismo é de esquerda, no Memorial do Holocausto, em Israel, no ano passado, deve ter cabulado as aulas sobre esse período histórico. Pena.

Se tivesse lido um pouco sobre isso, Bolsonaro teria se deparado com os julgamentos dos militares que cometeram crimes contra a humanidade. E entendido que se espera de subordinados o não cumprimento de ordens dadas por seus superiores hierárquicos quando elas significarem atrocidades contra outros seres humanos.

Atuar para que a sociedade ignore medidas de contenção de uma pandemia e volte ao trabalho em nome da sobrevivência política de seu líder é mais que uma atrocidade, é tentativa de genocídio.

Os 58 óbitos por Covid-19 das últimas 24 horas entram na conta do presidente, que luta a favor do coronavírus quando deveria proteger a vida. Quantos mortos o seu mandato aguenta?