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Bolsonaro nem precisava pedir jejum. Já há quem não vai comer por sua causa

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, usam máscaras em coletiva sobre o coronavírus no Brasil - Pedro Ladeira/Folhapress
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, usam máscaras em coletiva sobre o coronavírus no Brasil Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

04/04/2020 23h35

Jair Bolsonaro convocou um jejum contra o coronavírus para este domingo (5). Divulgou um vídeo em que pede, junto com lideranças religiosas, que os brasileiros passem o dia sem comer, em orações.

Este texto não vai gastar caracteres tratando da necessidade de um governo nem privilegiar uma religião em detrimento de outras, nem explorar a fé do povo em nome de seus interesses políticos. Isso seria demandar respeito à República para quem vive na fantasia de ter sido escolhido por Deus para guiar a nação.

O pedido de jejum é um grito de socorro à sua base de apoio de um Bolsonaro cada vez mais isolado em suas decisões equivocadas.

Segundo a pesquisa Datafolha, divulgada nesta sexta (3), 49% dos evangélicos acreditam que ele mais ajuda que atrapalha com sua conduta durante a crise, frente a 37% dos católicos, 29% dos espíritas e 27% dos agnósticos e sem religião. Na média do país, são 40%.

Antes que alguém generalize de forma tola, criticando os evangélicos, vale ressaltar que 42% deles acreditam que o presidente mais atrapalha do que ajuda. Enquanto 53% dos católicos, 62% dos espíritas e 65% dos agnósticos e sem religião pensam o mesmo. No total, 51% discordam de Bolsonaro.

Edir Macedo, Silas Malafaia, Estevam Fernandes, R.R. Soares e Valdemiro Santiago podem ser os líderes de igrejas numerosas, mas não falam por todos seus fiéis, muito menos pelo universo dos evangélicos.

Pelo menos, Bolsonaro é coerente. O presidente que, sistematicamente, desprezou as recomendações da ciência e da medicina para retardar a velocidade da infecção pelo coronavírus, ignorando parâmetros de isolamento social que estão sendo adotados em todo o mundo, convoca a população para ficar sem comer como solução.

A Covid-19 agradece. Afinal, enfraquecer o sistema imunológico das pessoas é tudo o que vírus precisa para avançar mais rápido.

Bolsonaro vê isso não como uma questão de fé, mas como ação estratégica para fortalecer sua posição em um momento em que a palavra "impeachment" é sussurrada pelos corredores de Brasília.

Não deixa de ser redundante que Bolsonaro proponha jejum por conta do coronavírus. Afinal, a demora de seu governo em planejar, aprovar e pagar uma renda básica, durante a crise, já está fazendo com que trabalhadores informais não comam neste domingo. Contra a vontade deles.

Leonardo Sakamoto