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Covid-19: Demora na renda básica traz fome ao povo de rua, diz padre Júlio

Bruno Escolástico/Photopress/Estadão Conteúdo
Imagem: Bruno Escolástico/Photopress/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

04/04/2020 14h06

"Daqui a três meses, muitos não vão ter conseguido sobreviver por problema de saúde ou por fome. Tenho visto, diariamente, o aumento das pessoas pedindo comida. Elas precisam ter acesso rápido aos recursos da renda básica."

Padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e vigário da paróquia São Miguel Arcanjo, em São Paulo, afirmou à coluna que a ajuda das organizações sociais já não tem sido suficiente para estancar a fome. Situação que poderia ser amenizada pelo repasse de recursos a trabalhadores informais e desempregados em meio à pandemia de coronavírus.

Contudo, a renda básica de R$ 600,00, aprovada pelo Congresso Nacional, ainda não começou a ser distribuída pelo governo Bolsonaro. E pode demorar a chegar a uma parte dessa parcela vulnerável da população.

Nesta sexta (3), enquanto o padre Júlio levava mil refeições para as ruas da Cracolândia, na região central da capital paulista, o ministro da Economia Paulo Guedes, em entrevista no Palácio do Planalto, chamava de "oportunismo político" as críticas à demora no repasse dos recursos.

"Daqui a três ou quatro meses, quando superarmos essa crise, podem voltar de novo com o barulho natural de uma democracia", afirmou Guedes. O ministro se defendeu das acusações de que demorou para começar a agir, apesar de reconhecer que "há três ou quatro semanas, nós saímos de zero".

Os críticos ao governo reclamam que os recursos deveriam ter sido liberados quando os primeiros casos despontaram por aqui, em fevereiro, e antes do isolamento social recomendado pela Organização Mundial de Saúde, pelo Ministério da Saúde, pelo governo do Estado de São Paulo e pela Prefeitura de São Paulo.

O governo sugere que a inscrição para quem estiver fora do Bolsa Família e do Cadastro Único receber o benefício será via aplicativo. "Mas a maior parte da população em situação de rua ou não tem celular ou os que têm não contam com internet disponível. Eles pegavam sinal de wi-fi de locais que, hoje, estão fechados. Como é que vão fazer?", questiona padre Júlio.

Alerta que há pessoas em situação de rua bastante vulneráveis que não são conseguir preencher o cadastro. E terão, portanto, que contar com a ajuda de organizações da sociedade civil.

Parte da população de rua, segundo ele, está bloqueada no Bolsa Família. Pessoas desestruturadas são mais facilmente suspensas por uma série de motivos burocráticos, como não responder às demandas de recadastramento. Há também um grupo que simplesmente não está no CadÚnico, apesar de ter renda familiar menor que meio salário mínimo per capita.

Utilização de hotéis e hostels

O coordenador da Pastoral do Povo de Rua defende que o poder público alugue quartos de hotéis e de hostels para abrigar essa população. Diz que não se refere aos hotéis cinco estrelas da cidade e que há uma rede hoteleira simples e ociosa em São Paulo que poderia ser usada.

De acordo com ele, o poder público tem disponibilizado espaços, como o ginásio do Centro Esportivo da Mooca, para o acolhimento durante a crise. Mas há locais que contam restrições para mulheres, famílias com crianças, travestis e transexuais.

Da mesma forma elogia a decisão da administração municipal de contratar restaurantes para servir refeições a esse público, mas critica a burocracia para que isso seja realizado.

"Precisamos de muitas pequenas respostas e não de poucas grandes respostas para enfrentar este momento", explica.

Para ele, os abrigos para população em situação de rua são, hoje, inferiores às necessidades. Parte deles não consegue cumprir a determinação de que funcionem 24 horas por dia por questões de salubridade e de capacidade de atendimento. Além, é claro, de juntarem, no mesmo espaço, dezenas de pessoas - o que vai contra as recomendações sanitárias.

Por isso, acredita que grupos poderiam ser distribuídos em hotéis e hostels espalhados pelo município. Principalmente, os mais vulneráveis à pandemia, como idosos e pessoas imunodeprimidas.

Além do acolhimento e atendimento que a Pastoral do Povo de rua vem prestando, o padre Júlio Lancellotti fez um abaixo-assinado pedindo para que a Prefeitura de São Paulo forneça, continuamente, kits com álcool gel e produtos de higiene para a população em situação de rua. E que abra mais espaços para esse grupo.

Leonardo Sakamoto