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Da PF ao coronavírus, Bolsonaro submete país às suas necessidades pessoais

Bolsonaro concede entrevista na rampa - Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo
Bolsonaro concede entrevista na rampa Imagem: Foto: Pablo Jacob/Agência O Globo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

13/05/2020 04h38

Bolsonaro avisou, em uma reunião ministerial, no dia 22 de abril, que trocaria o comando da Polícia Federal no Rio para proteger seus filhos e amigos. Quando o vídeo dessa cena foi assistido por autoridades, nesta terça (12), como parte do inquérito sobre sua interferência política na instituição, ele disse que os jornalistas interpretaram erroneamente essas palavras. A estratégia é a mesma que ele adota ao menosprezar uma montanha de mortos por covid-19, chamando a doença de gripezinha e histeria, dizendo que os óbitos estão sendo inflados por governadores, indo andar de jet ski no lago Paranoá em meio à aceleração da infecção.

Bolsonaro nega que interferiu politicamente na Polícia Federal como nega sua inação frente à gravidade da covid-19. Descontente com fatos que não cabem em sua narrativa, o presidente da República nega sua existência ou os tortura até ficarem úteis às suas necessidades. Se isso é absurdo e infantil para uma parcela da população, é música para os ouvidos de outra. Afinal, parafraseando o Evangelho de João, capítulo 14, versículo 6, ele é "o caminho, a verdade e a vida" na opinião de sua massa de seguidores fieis.

Em ambos os casos citados, Bolsonaro não traz elementos decentes para sustentar suas declarações - afirmar, como o presidente fez, que não se tratou na reunião da PF porque não se pronunciou as palavras "Polícia" e "Federal" é querer subestimar a inteligência alheia. Mas as declarações resistem mesmo assim. E ganham corpo. E são repetidas por fãs, nas redes sociais, como se fossem verdades absolutas - mesmo que careçam de fundamento.

A ideia de pós-verdade - quando o apelo à emoção e às crenças pessoais ao transmitir algo é mais importante para gerar credibilidade do que provas de sua veracidade - é aqui aplicável, como em todo o seu mandato. A narrativa rompe conexões com a realidade. Morre a razão, vive a convicção.

Surpreende-se com tal comportamento apenas os que estiveram presos em uma caverna, sem Wi-Fi, nos últimos dois anos. Como esquecer as vezes em que ele declarou, por exemplo, que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE estava errada só porque era cobrado pela geração de postos de trabalho?

E a consequência disso é que a imprensa e a sociedade civil gastam tanto tempo explicando que a reclamação não procede ou criticando o absurdo que é esse comportamento presidencial que o debate central acaba se perdendo.

Com Bolsonaro, a cada novo fato desabonador à sua imagem pode vir uma nuvem de fumaça, uma negativa bem cara de pau ou uma explicação mentirosa.

Falta, contudo, a ele a irreverência e o desprendimento de seu ex-companheiro de partido, Paulo Maluf. Um dos grandes comunicadores da história do país, Maluf também é um dos políticos mais corruptos de nossa história, o que para o naco dos eleitores de São Paulo que são seus fãs é um mero detalhe.

Não importa que aparecessem testemunhas, contas em paraísos fiscais, documentos estrangeiros, batom na cueca, foto de saque em caixa eletrônico fazendo sinal da vitória. Por anos, Maluf negou sua roubalheira com frequência, eloquência e, acima de tudo, cinismo. Por vezes, em entrevistas, diante do ridículo e do insólito da justificativa, parecia rir junto com os repórteres de seus próprios argumentos, em um grande balé do absurdo.

Talvez resida aí a principal diferença: por mais que salpique seus discursos com piadas de estudante do terceiro ano do ensino fundamental, o presidente se leva a sério, quando o nível de seus argumentos não permite isso. Uma das melhores qualidades do ser humano é conseguir rir de si mesmo. Bolsonaro deveria experimentar rir de Jair Messias, quando ele nega despudoradamente a realidade. E nos fazer companhia.

Leonardo Sakamoto