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"30 dias é pouco. Enem tem que ser adiado pelo tempo necessário", diz UNE

O ministro da Educação, Abraham Weintraub  - Reprodução
O ministro da Educação, Abraham Weintraub Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

20/05/2020 16h34

"Trinta dias é pouco. É preciso que o adiamento do Enem seja pelo tempo necessário para acompanhar o atraso no ano letivo." A declaração é de Iago Montalvão, presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) à coluna. Nesta quarta (20), o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do Enem 2020, anunciou seu adiamento por um prazo de 30 a 60 dias - ou seja, para dezembro deste ano ou janeiro de 2021.

A pandemia aumentou a defasagem existente entre estudantes de boas escolas particulares e aqueles de escolas públicas. Enquanto a vida nas primeiras seguiu seu curso, com plataformas de educação à distância, rico material didático e professores treinados para aulas pela internet, na segunda, muitos estudantes foram obrigados a entrar em férias. Depois, a se conectar com uma realidade precária de ensino à distância, não por culpa dos docentes e dos gestores educacionais, mas pelas deficiências de parte do sistema público.

Estudantes, professores, gestores públicos, artistas, intelectuais defenderam, em campanha nas redes sociais, a mudança nas datas de forma a não prejudicar as pessoas de baixa renda, que não têm acesso à internet para estudar.

"Ninguém quer que o exame seja adiado indefinidamente. Mas também não pode ser por um tempo insuficiente que signifique apenas uma chance para o governo criar uma sensação de solução e tirar o problema de suas mãos", avalia Montalvão.

O governo Jair Bolsonaro tomou a decisão para não ser atropelado pelo Congresso Nacional em uma pauta de grande apelo popular. Nesta terça, o Senado Federal aprovou o projeto de lei 1.277/2020, da senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), suspendendo o Exame Nacional do Ensino Médio pelo tempo que for necessário em razão do estado de calamidade pública provocado pela pandemia.

Um dos objetivos do adiamento, segundo declaração da senadora à Agência Senado, foi impedir a concorrência desleal entre candidatos das redes pública e privada. O placar foi de 75 votos a 1. Flávio Bolsonaro, filho 01 do presidente da República, foi o único a ser contrário à medida que favorece estudantes mais pobres.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ainda não descarta colocar a pauta em votação. Quer o compromisso do próprio presidente, pois diz não confiar no ministro da Educação.

Para o presidente a UNE, isso representa uma derrota ao governo Bolsonaro. "No início, eles estavam intransigentes na manutenção das datas. Com a pressão dos estudantes, o tema foi ao Senado e ao debate público, e conseguimos fazer com que ele recuasse."

Montalvão defende o estabelecimento de uma comissão com estudantes, professores, secretários de educação e especialistas junto ao Ministério da Educação para monitorar a situação e definir o melhor prazo para a realização da prova. Lembra que, por enquanto, não há perspectiva de retorno às atividades escolares presenciais dos alunos do terceiro ano do Ensino Médio.

O governo federal causou polêmica ao veicular, neste mês, uma campanha publicitária defendendo a manutenção das datas do Enem 2020. Dizendo que "a vida não pode parar", que "é preciso ir à luta", "se reinventar", "superar", quatro jovens atores pediam para que todos "estudem", "de qualquer lugar", "de diferentes formas", pois "seu futuro já está aí".

Especialistas apontam que a pandemia vai aumentar a defasagem entre ricos e pobres na educação.

Weintraub

Iago Montalvão não poupou críticas ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, um dos que mais defenderam a manutenção das datas originais.

"Isso só mostra a incapacidade que esse cidadão tem na gestão da coisa pública e na política. A pauta é justa e obedece a critérios técnicos e pedagógicos. Esse ministro sai derrotado todas as vezes que tenta levar pautas educacionais para a disputa ideológica", afirma.

A UNE entrou com uma queixa-crime no Supremo Tribunal Federal contra Weintraub. O ministro acusou a entidade de ser uma organização mafiosa.

Ele também é réu em um processo por racismo no Supremo Tribunal Federal por ofender chineses.

Leonardo Sakamoto