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Weintraub, que insulta de estudantes a chineses, calou-se diante da PF

Abraham Weintraub - Cláudio Reis/Agência O Globo
Abraham Weintraub Imagem: Cláudio Reis/Agência O Globo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

29/05/2020 22h25

A Polícia Federal conseguiu operar um milagre, nesta sexta (29), quando o ministro da Educação, Abraham Weintraub, permaneceu em silêncio por livre e espontânea vontade a fim de não prejudicar uma pessoa. No caso, a pessoa era ele mesmo.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que ele prestasse depoimento sobre uma declaração que deu na já icônica reunião ministerial do dia 22 de abril: "Eu por mim colocava esses vagabundos todos na cadeia, começando pelo STF".

Moraes viu nisso possibilidade de enquadramento em difamação e injúria ou crimes contra a segurança nacional e a ordem política e social.

Weintraub recorreu ao seu direito constitucional de não se autoincriminar e ficou quieto. Não tinha muitas opções: não poderia negar o que o vídeo mostrava e pedir desculpas criaria um constrangimento a ele e ao governo que declarou guerra com o Supremo.

Mas se o ministro consegue ficar em silêncio para não se prejudicar, poderia estender a prática para não agredir outras pessoas. No caso do episódio dos "vagabundos", deu azar porque, primeiro, a gravação se tornou pública após o ex-ministro Sergio Moro apontá-la como prova no processo sobre a interferência de Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

E, segundo, porque, dessa vez, não endossou uma foto de tacos de baseball com arame farpado ameaçando a União Nacional dos Estudantes (UNE), como fez em agosto - o que também foi um absurdo. Mas disse que queria mandar a cúpula do Poder Judiciário para a cadeia.

O silêncio do ministro não seria autocensura, mas sinal de maturidade. Uma mostra de que ele entende que sua liberdade de expressão é limitada, numa democracia, pela dignidade das outras pessoas.

Poderia ter pensado nos outros como em si mesmo, em abril deste ano, quando atacou a China, nosso maior parceiro comercial e principal destino dos produtos agropecuários brasileiros. Ele insinuou que o país tem um plano para se beneficiar, de propósito, com a pandemia trazida pelo coronavírus - o que, claro, criou um incidente diplomático. Por conta do preconceito sobre chineses em sua postagem, o STF abriu um inquérito sobre racismo.

"Geopolíticamente [sic], quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", postou. Junto a isso colocou uma ilustração dos personagens da Turma da Mônica na China.

O ministro poderia ter se colocado no lugar dos outros, em novembro de 2019, quando disse ao Jornal da Cidade Online que instituições públicas de ensino são produtores de drogas. Não apresentou provas, claro. Mas isso gerou indignação entre reitores, professores, funcionários e estudantes, que estavam se virando para sobreviver e manter a pesquisa nacional com os cortes nas bolsas do governo federal.

"Tem plantações de maconha, mas não são três pés, são plantações extensivas de algumas universidades, a ponto de ter borrifador de agrotóxico", afirmou. "Você pega laboratórios de química - uma faculdade de química não, era um centro de doutrinação - desenvolvendo drogas sintéticas, metanfetamina, e a polícia não pode entrar nos campi", disse.

Poderia ter imaginado com os outros se sentiriam quando, em abril do ano passado, bloqueou dotações orçamentárias de universidades federais com a justificativa absurda e sem lastro de que as instituições estariam fazendo "balbúrdia" e "evento ridículo", com "gente pelada". As instituições eram as internacionalmente reconhecidas Universidade de Brasília, Universidade Federal da Bahia e a Universidade Federal Fluminense, responsáveis por parte da produção científica nacional.

"Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas", afirmou. "A universidade deve estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo", acusou. "Sem-terra dentro do campus, gente pelada dentro do campus."

Ou poderia ter, no mínimo, agir de forma civilizada quando se dirige a pessoas que discordam dele nas redes sociais. Por exemplo, quando uma pessoa disse a ele que, na monarquia, o seu comportamento seria o de bobo da corte, respondeu: "Prefiro cuidar dos estábulos, ficaria mais perto da égua sarnenta e desdentada da sua mãe".

E, em meio à crise do Enem 2019, em janeiro, ele acusou Leandro Karnal de ser chato e petulante por conta de uma declaração do professor da Unicamp no qual afirma que o ministro Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol "são dotados de um certo tenentismo". Weintraub compartilhou uma postagem que diz que a "cara", o "jeito", a "voz", a "postura", o "conteúdo" de Karnal irritam. E, frente a críticas ao Ministério da Educação, ele chamou Marco Antonio Villa de "boca de esgoto" em um vídeo.

Recentemente, disse que é educado nas redes sociais.

Mas se pensasse, ponderasse e decidisse evitar o confronto, optando sempre pelo diálogo democrático e republicano visando à implementação de um projeto que levasse o país ao futuro, ele não seria o ministro da Educação de Jair Bolsonaro. E não faria tanto sucesso com o naco de 16% da população que compõe a base radical do presidente.

Definitivamente, uma coisa que esse governo faz bem é a auto-sobrevivência. O futuro? Que espere.

Leonardo Sakamoto