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No Twitter, Bolsonaro tenta convencer que "povo" é quem concorda com ele

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

17/06/2020 23h44

Jair Bolsonaro considera como "povo" apenas o naco dos brasileiros que concorda com ele. E, tomando a parte como o todo, vende as demandas e a visão de mundo desse grupo como sendo as aspirações e opiniões de todos os brasileiros.

Deve-se atentar para isso diante da sequência de tuítes que o presidente da República postou, na noite desta terça (16).

A thread foi uma resposta às ações da Polícia Federal que prenderam membros do grupo armado de extrema direita "300 do Brasil", quebraram sigilos bancários de seus aliados e realizaram busca e apreensão como parte do inquérito do STF que investiga o financiamento de manifestações contra a democracia.

O presidente tuitou que seu governo está "alinhado aos valores do nosso povo".

Mas o povo não ameaça com tochas ou ataca com fogos de artifício o Supremo Tribunal Federal. Tampouco gasta seu tempo produzindo fake news. Isso quem tem feito, com maestria, são seus aliados.

Também escreveu que "nada é mais autoritário do que atentar contra a liberdade do seu próprio povo", tentando convencer que a prisão de seus aliados em meio ao processo no STF são um ataque aos brasileiros como um todo. Por favor, nos inclua fora dessa, pois a maioria do povo não compactua com as ações violentas deles.

A liberdade sofre um atentado, pelo contrário, quando o presidente utiliza uma máquina de guerra digital, operando de dentro do Palácio do Planalto e com recursos públicos, a fim de atingir adversários e fragilizar a democracia.

Bolsonaro tuitou que "só pode haver democracia onde o povo é respeitado", novamente com a tentativa de dizer que o "povo" são seus aliados e seguidores.

O fato é que o desrespeito ao povo tem partido do próprio presidente que, desde o início da pandemia, menospreza o coronavírus e combate as medidas adotadas para a sua prevenção, pensando apenas no seu futuro político. O resultado de seu desrespeito pela saúde do povo são, por enquanto, 45 mil mortos.

Bolsonaro também disse que "é o povo que legitima as instituições".

A esmagadora maioria do povo quer um governo que garanta condições para emprego, segurança, qualidade de vida, liberdade. Não apoia a defesa de um novo AI-5 ou o uso do artigo 142 da Constituição para justificar a tutela da democracia por parte das Forças Armadas como seus aliados.

O presidente Jair Bolsonaro tem tentado confundir a diversidade da população brasileira, seja ela de direita ou de esquerda, aos 16% que o apoiam cegamente (números do Datafolha), e compõem o que chamamos de bolsonarismo-raiz. Quer mostrar que um ataque a seus aliados são um ataque ao povo. E que o povo está ao seu lado quando, na verdade, o povo está preocupado em sobreviver porque o governo o abandonou.

Desde o início de sua gestão, Bolsonaro tem busca estabelecer uma comunicação direta com seus apoiadores, ignorando instituições como o Congresso e o Supremo. Adoraria que as massas o carregassem, como líderes populistas fizeram, mas tem que se contentar com esse grupinho. E, infelizmente, alguns membros das Forças Armadas e das polícias militares acreditam que é o bastante.

Para ele, o povo está com ele porque o povo é esse naco. O resto é um pacote de desinformados, massa de manobra ou inimigos da nação. Ou estão com ele ou contra ele, não há mediação possível. Se ele tiver sucesso na estratégia, em breve começará a campanha pelo "ame-o ou deixe-o".

Leonardo Sakamoto