PUBLICIDADE
Topo

"Cidadão, não, engenheiro": Era Bolsonaro tornou o esgoto orgulhoso de si

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/07/2020 12h31

"Cidadão, não. Engenheiro civil, formado. Melhor do que você."

Reproduzida pelo Fantástico, da TV Globo, na noite deste domingo (5), a frase de uma mulher ao ser abordada junto com seu companheiro por uma fiscalização contra aglomerações em bares na Barra da Tijuca, no Rio, é lapidar do Brasil. Não nasceu com Bolsonaro, mas tem nele um redentor.

É nativa de uma elite e de seus cães de guarda que acreditam que todos os "cidadãos" são iguais sim, mas não se incluem nessa categoria. Para uma parcela dos que têm mais dinheiro no bolso, as leis foram criadas para conter a massa de pobres, negros, iletrados, indígenas, os chamados "cidadãos", e, portanto, não valem para ela. Não se veem como cidadãos, mas como donos. "A gente paga você, filho", sintetizou ela.

É angustiante saber que a semovente supracitada não está sozinha, muito pelo contrário. O país é pensado para defender o patrimônio e os direitos de quem tem, contendo vida e liberdades de quem não tem. Tanto que o Estado aborda educadamente frequentadores em bairros ricos da capital e executa João Pedro, dia após dia, em São Gonçalo, invadindo e metralhando casas sem fazer cerimônia.

É desconcertante a sinceridade desse tipo de argumento frente ao fiscal. Em sua lógica violenta, chega à conclusão de que é uma afronta ser tratada como uma pessoa comum por ter uma formação melhor. Ironicamente, o superintendente de educação e projetos da Vigilância Sanitária que fez a abordagem, Flávio Graça, tem mestrado e doutorado.

Essa elite que, quando colocada contra a parede, gosta de relinchar um bom "você sabe com quem está falando?" O mesmo DNA estava presente nas palavras do empresário Ivan Storel, no dia 30 de maio, quando a polícia foi atender a uma denúncia de violência doméstica feita por sua esposa em um condomínio de classe alta próximo a São Paulo.

Em um vídeo gravado pelos agentes, é possível vê-lo gritando: "você é um bosta. É um merda de um PM que ganha R$ 1 mil por mês, eu ganho R$ 300 mil por mês. Quero que você se foda, seu lixo do caralho. Você não me conhece. Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um bosta. Aqui é Alphaville".

As frases de Storel e da mulher-não-cidadão-mas-engenheiro carregam séculos de nossa formação, para lembrar que na configuração social brasileira, uns falam, outros obedecem. Estão sendo vistas mais facilmente por conta da popularização de smartphones com boas câmeras e das redes sociais e aplicativos de mensagens. Mas também porque Jair Bolsonaro se tornou um exemplo. Se o presidente vomita esgoto pela boca e acredita que existam brasileiros que estão acima da lei, por que não terei orgulho de ser assim também?

"Quem você pensa que é?", frase menos agressiva e útil frente a algum desmando de um representante do Estado (o que não era o caso da inspeção dos bares na Barra da Tijuca), não faz tanto sucesso por aqui. Pois não é o questionamento do uso exagerado do poder por um policial ou um fiscal que está em jogo nesse momento de discussão, mas sim a afronta de tentar tratar um "dotô" como se fosse um operário qualquer.

A ideia vai se adaptando conforme o ambiente e pode, agregando valores, assumir outras formas como "teu salário paga a comida do meu cachorro", "eu conheço gente importante, sabia?", você vai perder seu emprego, meu irmão", "isso que dá viver em um país com essa gentinha". É a pessoa que diz não entender o porquê de estar sendo processado na Justiça do Trabalho por jornadas de 12 horas por dia uma vez que tratava a empregada doméstica como "alguém da família".

No Brasil, de uma maneira geral, se você quiser viver em uma bolha a vida inteira, praticamente consegue. Conheço pessoas que sabem listar a sequência das estações de metrô de Nova York e Paris ou as lojas da Lincoln Road, em Miami, mas só foram à Itaquera, pela primeira vez, na Copa. Essa ausência da cultura da alteridade também colabora com a falta de empatia em comportamentos e frases bizarras, revelando mais facilmente o lado mais sombrio da alma de cada um. O que é extremamente complicado porque o naco rico que acha que vale mais porque estudou mais e que não tem contato com a realidade é minoria numérica no país, mas ocupa cargos de poder.

Com o crescimento econômico da primeira década do século 21, aumentou o número de pessoas com acesso a bens e serviços. Isso gerou aquela "infestação de gente feia" nos aeroportos, que transformaram "nosso aeroporto em rodoviária". Qual a diferença entre essas frases e a proferida na Barra da Tijuca? O contexto apenas.

Isso sem contar a parcela daqueles que, diante da possibilidade de ascensão social, passam a proteger os privilégios de uma minoria, na esperança de que possam se tornar uns dos poucos a desfrutá-los - ao invés de exigir que direitos e deveres valham, desde sempre, para todos.

Há quem defenda que tudo isso seja dito a plenos pulmões para que conheçamos o Brasil que temos, sem a hipocrisia da narrativa de um democrático. Mas, se assim for, o repúdio a cada uma dessas falas deve ser feita a plenos pulmões sob o risco de que outras tantas pessoas se reconheçam nele e sintam-se inspiradas.

Bolsonaro chegou lá não apenas por que surfou na crise política e econômica, pelo discurso antissistema, pela conjuntura de fatores que incluiu o atentado que sofreu. Ele também representa e protege a parte mais rica que acredita que o Estado existe para servi-lo. E cada vez que reforça que há brasileiros mais iguais que os outros, seus seguidores sorriem e reafirmam seus preconceitos.

Em 18 de junho do ano passado, ao defender a nomeação de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, ao cargo de embaixador nos Estados Unidos, afirmou: "Lógico que é filho meu. Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Pretendo, está certo. Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou".

Na reunião ministerial de 22 de abril, ao defender interferência política na Polícia Federal em seu benefício particular, Bolsonaro disse: "Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira".

Mesmo com muito trabalho de educação para a cidadania, concomitante a mudanças estruturais para garantir que a República realmente sirva ao interesse comum, ainda assim levará um rosário de gerações até que frases forjadas pelo preconceito e a soberba tornem-se peça de museu. Pois na visão de parte de nossa elite política e econômica, a igualdade de direitos é um discurso fofo de marketing que se dobra às necessidades individuais.

O ideal seria que, a cada vez que isso acontecesse, um contingente ainda maior de servidores e policiais fosse deslocado para a atividade de fiscalização. Não como revanche, mas para mostrar que todos são cidadãos e estão sujeitos à mesma lei, mesmo que não acreditem nisso.

Correção: Lincoln Road, um dos logradouros mais frequentados por brasileiros nos Estados Unidos, fica em Miami.

Leonardo Sakamoto