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Mesmo infectado, Bolsonaro se mantém leal à parceria com o coronavírus

2.jul.2020 - O presidente Jair Bolsonaro participa, por videoconferência, da LVI Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados - Marcos Correa/PR
2.jul.2020 - O presidente Jair Bolsonaro participa, por videoconferência, da LVI Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados Imagem: Marcos Correa/PR
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

07/07/2020 20h00

A parceria que o presidente da República estabeleceu com o coronavírus é uma das ações mais sólidas de seu governo. Ajudou a importá-lo dos Estados Unidos através de aviões do governo, derrubou obstáculos à sua expansão ao se negar a agir como líder e, agora, atua como vetor de infecção da doença contra jornalistas. E ainda faz propaganda de remédio que não tem efeito comprovado, colocando vidas em risco. Raras lideranças globais podem se dizer tão envolvidas com a pandemia como ele.

No início de março, Jair Bolsonaro levou uma grande comitiva à Flórida para encontro com Donald Trump e empresários. De volta ao Brasil, ao menos 23 testaram positivo para covid-19, ajudando a espalhar a doença por aqui.

Depois, promoveu a expansão descontrolada da pandemia menosprezando a sua letalidade e se abstendo de articular um plano nacional para enfrentamento à moléstia, o que incluiria protocolos de entrada e saída de quarentenas e bloqueios totais.

Pelo contrário: na ânsia de que as atividades econômicas retornassem o quanto antes, tentou convencer a população que tudo isso era uma "gripezinha". Atacou as recomendações da Organização Mundial de Saúde, abraçou, beijou, tossiu, fez da mão guardanapo. Promoveu micaretas antidemocráticas aos domingos. Criticou governadores e prefeitos por evitarem o liberou-geral.

Após afirmar que seu exame deu positivo, Bolsonaro manteve a displicência com a saúde alheia, retirando a máscara enquanto recebia jornalistas para uma entrevista - uma atitude criminosa.

Já não bastasse o assédio, os xingamentos, a violência de gênero, a homofobia, o preconceito dispensado pelo presidente nas coletivas, agora profissionais de imprensa também têm que enfrentar a possibilidade de ficarem gravemente doentes devido à falta de empatia e psicopatia do presidente. Ou alguma estratégia bizarra para mostrar, mais uma vez, à população de que tudo não passa de um "resfriadinho".

A esmagadora maioria da comunidade médica e científica não recomenda o uso da cloroquina para o tratamento da covid-19. Apesar disso, o presidente está, mais do que nunca, fazendo propaganda do produto, tentando mostrar que já melhorou por conta desse "elixir milagroso". Ao ofertar um remédio mágico e barato, quer enfraquecer a quarentena e pressionar para que o país volte à normalidade. No melhor estilo "morra quem morrer" - para usar a já icônica frase do prefeito de Itabuna (BA).

Os números da pandemia mostram que a maior parte dos pacientes por covid-19 se recupera por conta própria, sem depender de medicamento, internação ou fornecimento de oxigênio hospitalar. Ofertando cloroquina para os brasileiros, como se fosse bala de menta, o presidente busca levar o crédito pelo que faz naturalmente o sistema imunológico. Quem vai acreditar que foram microscópicas estruturas de defesa do corpo, aliadas a descanso, água e boa alimentação? Em seu marketing, não será o organismo funcionando, mas a cloroquina de Bolsonaro.

Afirma que a insistência de governadores e prefeitos em manter o país em quarentena é inútil e serve apenas para criar desemprego. E insiste que é o uso amplo da cloroquina e o "isolamento vertical" apenas de idosos e pessoas imunodeprimidas que vão resolver o problema.

Bolsonaro diz que a quarentena não adiantou e a prova disso são os mais de 66 mil mortos. Mentira. Se estamos nesse número e não em meio milhão de óbitos é exatamente por conta da adoção dessas medidas tomadas à sua revelia.

Além dos graves efeitos colaterais do produto, como arritmia, a promessa de uma cura faz com que parte da população relaxe no uso de máscara, álcool gel, água e sabão e na adoção do isolamento social.

Em suma, ele segue em uma cruzada em nome do vírus ao mesmo tempo que tenta mostrar que tudo não passa de um grande exagero.

Como disse na coluna anterior, espero que Bolsonaro se recupere rapidamente. Não importa que ele agrida valores morais e éticos, não respeite direitos fundamentais e abrace a necropolítica. É no campo das ideias, do diálogo e da livre manifestação que a batalha democrática deve ser travada, não nos campos santos e cemitérios.

Mas se tivesse, desde o início do ano, preparado o país para enfrentar a crise como outros líderes mundiais, não teríamos essa montanha de mortos. Talvez ele nem tivesse contraído a doença. Preferiu ir adaptando sua narrativa negacionista. Primeiro, era fantasia. Depois, gripezinha. Daí, fake dos caixões vazios. De lá, conspiração contra a cloroquina. Aí começou o "todo mundo morre um dia". Passou a fazer cálculos de óbito/habitante. Tudo para não reconhecer que o governo nos enfiou na lama.

Quem vai cair nessa narrativa? Muita gente que está passando necessidade e precisa trabalhar. Outros tantos que precisam se apegar a algo devido ao estado de saúde de entes queridos. E, claro, o grupo que não é cidadão, mas engenheiro civil, entre outros tantos formados, e melhores do que você.

Leonardo Sakamoto