PUBLICIDADE
Topo

Bolsonaro faria menos mal se o remédio fake fosse chazinho e não cloroquina

Bolsonaro toma cloroquina e faz vídeo em defesa do remédio barrado pela OMS -
Bolsonaro toma cloroquina e faz vídeo em defesa do remédio barrado pela OMS
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

15/07/2020 19h15

Bolsonaro trata a cloroquina com base na fé, sem respaldo científico. Refere-se ao medicamento como se fosse um elixir mágico, uma simpatia ou uma promessa a alguma divindade. E, com base nisso, faz propaganda de um produto que pode trazer graves danos à saúde e, pior, sem comprovação de melhora em caso de covid-19.

"O futuro vai dizer se esse remédio é eficaz ou não. Para mim foi, credito a ele. E se for, muita gente encaminhou o contrário, gente com responsabilidade. Então a história vai dizer quem estava certo no futuro", disse ele, nesta quarta (15), nas redes sociais.

O problema é que, no futuro, muitos dos que morrerem por acreditarem que o distanciamento social não é essencial, bastando tomar cloroquina de forma preventiva, não estarão aqui para reclamar. Pior: muitos dos que tomaram todos os cuidados, mas foram contaminados por lebloners e AI-Cinquers também não estarão.

Esse discurso faz com que Bolsonaro se conecte a um grupo de pessoas que, diante da insegurança trazida pela pandemia, esteja buscando se agarrar em algo. Não à toa, o presidente responde às perguntas sobre a efetividade do medicamento pedindo para o jornalista um produto melhor para ser tomado no lugar. Ele sabe que, para muita gente, é pior a ansiedade do vazio do que uma resposta qualquer.

O processo também é muito semelhante ao que acontece em teorias conspiratórias - que encontram um terreno fértil para crescer diante da falta de explicações. Daí, alguém aparece com uma resposta redondinha e que cabe feito uma luva.

Compreender que, na maioria das vezes, estamos à deriva, sem controle sobre nossa vida e morte, é desesperador. O presidente sabe bem disso. Ele precisa mostrar para si mesmo e seus seguidores que a abominável facada que levou em 6 de setembro de 2018 é parte de uma grande conspiração. Porque, o que os fatos dizem é muito doloroso: segundo inquérito da Polícia Federal, Adélio Bispo é uma pessoa mentalmente transtornada.

"Não tô fazendo campanha pelo medicamento, afinal de contas o custo é baratíssimo. E, talvez, por causa disso é que tem muitas pessoas contra. E outras que, parece, que por questão ideológica." Na declaração, Bolsonaro ainda tenta imputar à maioria esmagadora dos médicos e cientistas a possibilidade de conspiração ou manipulação, afastando dele. Típica jogada discursiva.

Por fim, a estratégia do presidente encontra eco à de algumas lideranças evangélicas e católicas que prometem a cura para as piores enfermidades a quem obedecer (e contribuir) com a sua igreja. Mesmo que o mérito pela solução dos problemas de saúde dos fieis seja, na maioria das vezes, de seu próprio sistema imunonológico.

Mas na narrativa do presidente, bem como na de alguns líderes religiosos, não foi o organismo funcionando sozinho, mas a cloroquina e a fé. E, se der errado, paciência, como ele sempre diz, a morte é o destino de todos.

Bolsonaro já vai ficar para a história como o líder que, quando o Brasil mais precisou dele, submergiu. E, ao invés de agir para poupar vidas, criou narrativas mirabolantes de um remédio mágico com efeitos colaterais para justificar as pessoas a voltarem à normalidade.

Tivemos grande azar. Se era para impulsionar diariamente uma fake news sobre um remédio mágico para a cura da covid, seria melhor que o presidente tivesse escolhido a do chá de boldo.

Leonardo Sakamoto