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Para Bolsonaro, cloroquina é eficaz para prevenir ‘infecção’ por Queiroz

Jair Bolsonaro segura caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada - REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro segura caixa de cloroquina do lado de fora do Palácio da Alvorada Imagem: REUTERS/Adriano Machado
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/07/2020 09h09

Uma grande pesquisa da coalizão de hospitais brasileiros apontou que a cloroquina é ineficaz para o tratamento de casos leve e moderados de covid. O que o grupo de médicos e pesquisadores não avaliou, contudo, é a efetividade do uso do medicamento por políticos para evitar a contaminação de sua imagem em casos pesados de desvio de recursos públicos.

Enquanto Jair Bolsonaro ergue caixas de cloroquina para aplausos de multidões de fanáticos seguidores, atua como garoto-propaganda do remédio em repetidas lives nas redes sociais e até mostra o produto para as revolucionárias emas que ocupam os jardins do Palácio do Alvorada sabendo que está sendo fotografado, não sobra muito espaço para que ele seja questionado sobre a atuação de Fabrício Queiroz como operador dos desvios de recursos dos gabinetes da sua família no passado.

Amigo de longa data do presidente, o ex-faz-tudo da família e ex-assessor do então deputado estadual e, hoje, senador, Flávio Bolsonaro, chegou a ser preso em meio ao inquérito que investiga corrupção na Assembleia Legislativo do Rio. Mas foi solto no dia 9 de julho, após decisão do presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio Noronha, a quem Bolsonaro havia confessado "amor à primeira vista".

Nesta quinta (23), o magistrado negou um pedido de liminar do Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos (CADHu) para estender os mesmos efeitos da decisão que beneficiou Queiroz com a transferência da prisão provisória para a domiciliar durante a pandemia a outras pessoas idosas, imunodeprimidas ou gestantes e, portanto, que contem com risco maior de contrair coronavírus. A defesa de Queiroz afirma que ele ainda se recupera de um tratamento de câncer.

Como vacina a críticas, o STJ divulgou que o próprio Noronha concedeu o benefício a uma gestante e mães de filho pequeno, sob o argumento de que ela pertence a um dos grupos de risco da pandemia.

Com a decisão, a então foragida Márcia Aguiar, esposa de Queiroz, também foi agraciada com o habeas corpus para cumprir a tarefa de cuidar do marido doente (sim, é isso mesmo que você acabou de ler). Consequentemente, o temor de que ela topasse uma delação premiada do tamanho de um cometa para evitar ser presa desapareceu, para tranquilidade da família Bolsonaro. Pelo menos, neste momento.

De acordo com o Ministério Público do Rio, Queiroz operava um esquem de "rachadinha", que envolvia servidores públicos não apenas do gabinete de Flávio, na Alerj, mas também no do então deputado federal Jair Messias, na Câmara. E fazia a ponte do esquema com milicianos e com o grupo de matadores de aluguel Escritório do Crime.

Médicos e cientistas podem entender do corpo humano e de salvar vidas, mas não muito de política.

Porque a cloroquina tem sido bastante eficaz para que o presidente empurre os trabalhadores de volta às ruas (afinal, se existe um elixir mágico, por que manter quarentena?), mesmo com 1317 mortes registradas nas últimas 24 horas e mais de 84 mil óbitos de brasileiros no total.

E excelente para afastar do noticiário uma doença mais antiga e persistente que assola o país: a confusão entre o que é público e o que é privado, que acomete políticos como a família do presidente.

Leonardo Sakamoto