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Leonardo Sakamoto

Violência sexual: Família ameaça mais as crianças do que exposição de arte

16.ago.2020 - Manifestantes anti aborto fazem oração em frente hospital onde menina abusada de 10 anos sofre um aborto - Anderson Nascimento/Estadão Conteúdo
16.ago.2020 - Manifestantes anti aborto fazem oração em frente hospital onde menina abusada de 10 anos sofre um aborto Imagem: Anderson Nascimento/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

22/08/2020 11h48

O aborto realizado em uma menina de dez anos e a reação violenta de grupos fundamentalistas lembram que apesar de artistas e suas exposições terem sido falsamente acusados de promoverem pedofilia, a violência sexual contra crianças ocorre predominantemente no seio da família. Com igrejas passando pano, ao menos nos casos de grande repercussão ou quando isso envolve padres e pastores.

A menina de São Mateus, após ter sido sistematicamente estuprada por seu tio por quase metade da vida, teve seus direitos atacados por religiosos, que tentaram impedir o aborto garantido por lei e pela Justiça.

Um deles foi o arcebispo de Olinda e Recife, Antonio Fernando Saburido, que defendeu que a gravidez continuasse a despeito do risco de vida e da violência sofrida. "Essa criança tem sim condições de sobreviver", afirmou.

Deve ser uma das exigências do cargo. Pois, em 2009, o então arcebispo de Olinda e Recife, José Cardoso Sobrinho, criticou o aborto realizado em uma menina de nove anos, grávida de gêmeos, após ter sido estuprada desde os seis anos pelo padrasto. "Quem aprovou, quem realizou esse aborto, incorreu na excomunhão", disse.

Sem contar a surpreendente declaração do presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Walmor Oliveira de Azevedo, que chamou o aborto na menina de dez anos de "crime hediondo".

Hediondo é o silêncio sobre os abusos sexuais de crianças e adolescentes perpetrados por padres católicos e pastores evangélicos e acobertados por seus chefes. O papa Francisco, que teve a dignidade de quebrar esse pacto e pedir perdão pela violência sexual cometida por membros da Igreja Católica, provocou a ira de setores que acham que não fizeram nada de errado. Para esses setores, o erro está em quem denuncia, não em quem pratica o crime.

Em 2017, milícias digitais promoveram o ódio tanto contra a exposição Queemuseum, que estava no Santander Cultural, em Porto Alegre, quanto sobre uma performance envolvendo nu artístico, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo. Políticos e religiosos surfaram nos protestos, acusando ambos de promover a "pedofilia" - apesar de não haver nada de violência sexual nas obras. Uma afirmação indigente, portanto, mas que encontra eco entre zebus.

Como parte da população não se importa em entender o sentido de uma mostra artística, muito menos se ela promove realmente "pedofilia", milícias digitais despejaram o significado que desejarem no alvo do ataque, conectando-o a ódios ancestrais e tabus. A turba, a partir daí, seguiu a lógica de retroalimentação vazia do linchamento. Ou seja: não importa o que aconteceu de verdade, se alguém está apanhando da turba é porque é culpado de algo.

E a turba protestou contra as duas instituições culturais, bradando que a família estava unida para proteger as nossas crianças. Ironicamente, é exatamente na família - e não em museus - que estupros ocorrem.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2011 e 2017, foram notificados 58.037 casos de violência sexual contra crianças e 83.068 contra adolescentes. Entre as crianças, o principal tipo de violência foi o estupro (62%), seguido do assédio sexual (24,9%). O mesmo ocorreu entre os adolescentes, com estupro à frente (70,4%) e assédio sexual (19,9%).

O dado mais relevante é que, entre as crianças, os perpetradores da violência foram os próprios familiares (37%), seguidos por amigos e conhecidos (27,6%), desconhecidos (6,5%). A categoria "outros" representa 28,9%.

A maioria dos casos de violência sexual contra crianças (69,2%) são cometidos na própria residência das vítimas. Ou seja, no local que elas consideram seguro.

Parte do foco do debate público sobre violência sexual é centrado na falsa ideia de que o perigo vem daquilo que é de fora do círculo de segurança. E que o porto seguro é a família e a religião, enquanto a violência vem da arte, mas também da cultura e da educação.

As estatísticas e os grandes casos de comoção nacional mostram o contrário que eles também vêm daqueles em quem mais confiamos, como líderes espirituais, médicos, padres, pastores, pais, padrastos, tios, avôs, irmãos, primos, amigos.

A própria ministra Damares Alves, cujo ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos vem sendo acusado de ajudar a pressionar a família da menina contra o aborto, foi vítima de odiosos estupros por um pastor quando criança.

Por vezes, denúncias são soterradas em montanhas de silêncio para manter as aparências. Isso quando são levadas a sério. Ainda mais quando envolvem clérigos. Assim, a vítima é obrigada a conviver com o fruto da violência.

O que fazer quando o porto seguro é, na verdade, o local de risco? E as pessoas que teriam que dar afeto e amparo são aquelas que condenam a uma vida de sofrimento?

Difícil responder, ainda mais quando você tem apenas dez anos e entende que muita gente poderosa vê você como um vaso não como um ser humano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto