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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro foge de pergunta sobre Queiroz e jornalista que é "bundão"?

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/08/2020 14h30

Jair Bolsonaro ministrou, nesta segunda (24), uma aula de cinismo. Chamou jornalistas de "bundões" um dia após ter fugido da pergunta de um repórter que o questionou sobre os R$ 89 mil depositados por Fabrício Queiroz e, sua esposa, Márcia de Aguiar, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.

Ou seja, após ameaçar um profissional do jornal O Globo que estava fazendo seu trabalho com a, agora, icônica frase - "Minha vontade é encher tua boca com uma porrada" - e correr de um questionamento legítimo, ele tem a pachorra de dizer que jornalista que é bundão?

"Quando pega num bundão de vocês [da imprensa] a chance de sobreviver é bem menor", afirmou Bolsonaro sobre o risco de morrer de covid-19 em comparação a ele que, segundo sua própria avaliação, tem "histórico de atleta".

Mais irônico que isso só o fato das milícias digitais do presidente, no intuito de reduzir os danos causados pela ameaça ao repórter, estarem realizando uma campanha de desinformação nas redes sociais. Dizem que o jornalista teria afirmado: "vamos visitar sua filha na cadeia". A Agência Lupa mostrou, contudo, que o áudio da conversa mostra um homem não identificado fazendo um convite ao presidente: "vamos visitar a nossa feirinha da catedral?"

Colocar uma menina de nove anos para fugir da responsabilidade das próprias declarações que é coisa de bundão.

Caso tivesse coragem, Bolsonaro reafirmaria o que disse. Em juízo. Mas o governante tem um histórico de sair fora, vazar, pirulitar-se, enfim, fugir de perguntas que não sabe responder (normalmente relacionadas a políticas de governo) ou não quer responder (sempre que se trata de investigações de corrupção envolvendo sua família).

A quebra de sigilo bancário de Queiroz mostrou que ele depositou R$ 72 mil na conta da primeira-dama entre 2011 e 2018, conforme revelou a revista Crusoé. Sua esposa, Márcia de Aguiar, colocou mais R$ 17 mil - informação obtida pela Folha de S.Paulo. No total, R$ 89 mil.

De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro era o operador do desvio de recursos públicos do gabinete do então deputado estadual e, hoje, senador. O Coaf havia apontado, em 2018, um depósito de R$ 24 mil de Queiroz para Michelle. Jair prontamente disse, naquele ano, que isso era parte da devolução de um empréstimo de R$ 40 mil que ele fez ao amigo de longa data. Porém, nunca comprovou nada. E sempre atacou jornalistas que o lembram disso.

Mas o melhor exemplo da falta de coragem presidencial tem sido o próprio comportamento de Jair frente à pandemia.

Cobrado sobre a falta de articulação nacional para o enfrentamento ao coronavírus, ele tem repetido - à exaustão - a mentira de que o Supremo Tribunal Federal afirmou que cabia a prefeitos e governadores, e não a ele, a elaboração da políticas de combate à crise. Na verdade, o que o STF disse é que eles também deveriam atuar. Quem tirou o corpo do presidente fora foi o próprio.

Nenhum dos 115 mil brasileiros que morreram por covid merece ser chamado de bundão. Eles são vítimas de uma pandemia assassina que encontrou em um governo ausente um excelente aliado. Bundão é um comandante em chefe que, diante da mais importante guerra travada em território brasileiro, permite a invasão inimiga sob o lema "todo mundo morre um dia". Se o presidente tivesse sido um militar, isso envergonharia as tropas.

Em tempo: Presidente, por que Michelle recebeu R$ 89 mil de Queiroz e esposa?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto