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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro aposta que auxílio emergencial cura até notícia de PIB deprimente

Bolsonaro anuncia prorrogação do auxílio com valor de R$ 300 -
Bolsonaro anuncia prorrogação do auxílio com valor de R$ 300
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

01/09/2020 12h14

Logo após o IBGE divulgar que a economia brasileira tombou 9,7% no segundo trimestre em relação ao trimestre anterior, Jair Bolsonaro veio a público anunciar a prorrogação do auxílio emergencial por mais quatro meses no valor de R$ 300. Tanto a extensão do auxílio quanto a queda do PIB já eram previstas. Mas nada como juntar as duas notícias na mesma manhã de terça (1) para encobrir previsões ruins deixadas pelo caminho.

Quando a pandemia já era uma realidade no Brasil, no começo de março, o ministro da Economia afirmou que a estimativa era de um crescimento de 2% do Produto Interno Bruto em 2020, caso o governo aprovasse as reformas no Congresso. Sim, essa é da mesma safra de outra declaração que se tornou antológica pela total desconexão com a realidade:

"Se promovermos as reformas, abriremos espaço para um ataque direto ao coronavírus. Com 3 bilhões, 4 bilhões ou 5 bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus. Por que já existe bastante verba na saúde, o que precisaríamos seria de um extra", afirmou em entrevista à revista Veja.

Detalhe: por conta da pandemia, o rombo para 2020 já está próximo a R$ 1 trilhão.

Não parou por aí, claro. Pressionado a garantir um apoio aos trabalhadores informais em quarentena, Guedes trabalhou com o valor de R$ 200 (próximo da média do Bolsa Família, de R$ 190) para o auxílio emergencial. Exaltou o montante, dizendo que dava para comprar duas cestas básicas. Na verdade, considerando uma cesta decente, não bancava nem meia, como mostrou o levantamento mensal do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos).

Graças ao bom senso de deputados federais e senadores, o benefício foi aumentado. E, Bolsonaro, sempre ligeiro, foi mais competente para assumir a paternidade do auxílio do que o Congresso Nacional. Isso aumentou sua popularidade junto a quem ganha até três salários mínimos, repondo a aprovação perdida com a classe média - que se irritou com seu menosprezo à pandemia.

"Depois do Congresso apoiar R$ 500,00 para o auxílio emergencial, estudos do governo brasileiro, com responsabilidade fiscal e apoio da liderança do governo na Câmara, o Ministério da Economia alcançou os R$ 600 pagos em três parcelas. O maior programa de auxílio aos mais necessitados do mundo", postou o presidente em junho para ser desmentido, logo na sequência, também no Twitter, pelo deputado federal Marcelo Aro (PP-MG).

"Presidente, isso não é verdade. Vamos contar a história real? Fui relator do projeto. Seu governo foi contra o meu relatório desde o primeiro momento. Vocês não admitiam um valor acima de R$ 200,00." O Congresso construiu um valor de R$ 500,00, após rejeitar os R$ 200 de Jair. E quando o governo viu que ficaria de fora, propôs R$ 600 para aparecer bem na foto.

O valor pago a mais de 67 milhões de pessoas evitou uma queda ainda mais da economia. Ou seja, Guedes e Bolsonaro só não estão governando uma montanha de escombros (ao lado da montanha com mais de 121 mil mortos) por que o Congresso enfiou goela dele abaixo um auxílio capaz de comprar carne, tijolo e pagar água e luz.

Com a extensão de hoje, o governo quer garantir o apoio que conquistou junto a famílias de informais e manter a injeção de recursos na economia, enquanto ganha tempo para transportar parte dos beneficiários ao Renda Brasil - o Bolsa Família rebatizado - em 2021.

Jair sabe que seu futuro político depende mais de um programa de transferência de renda mais parrudo do que do respeito ao teto de gastos. E assim como fez nesta terça, ao encobrir o anúncio de um PIB na lama com a notícia da prorrogação do auxílio emergencial, vai seguir polvilhando o benefício em tudo o que lhe parecer amargo ou azedo a partir de agora, na torcida de conseguir temperar sua reeleição.

Parlamentares da oposição, centrais sindicais e movimentos sociais já protestam contra a redução no valor do auxílio emergencial. Exigem que sejam mantidos os R$ 600 - ou R$ 1200, no caso de mães chefes de família.

Por mais que Bolsonaro diga que não há dinheiro para tanto, que o valor é pouco para quem recebe, mas muito para quem paga, sabe que ficará novamente com os dividendos políticos se isso acontecer. E há parlamentares do centrão bastante dispostos a tornar isso realidade. Afinal, estamos em ano eleitoral.

Desconfio que o presidente torça silenciosamente para que Guedes passe nervoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto