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Leonardo Sakamoto

Suspensão em Oxford e Bolsonaro excitam conspiracionistas antivacinação

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/09/2020 14h28

A suspensão nos testes da vacina contra o coronavírus desenvolvida pela Universidade de Oxford animou uma parcela dos terraplanistas biológicos brasileiros. Nas galerias de esgoto dos subterrâneos do WhatsApp, a cautela do processo científico foi tratada como prova cabal de que a ciência é uma fraude. Mostrando que falta sim amor no mundo, mas falta ainda mais interpretação de texto.

O problema foi detectado em um dos voluntários que teve o diagnóstico de uma inflamação na medula espinhal. Ainda não é possível afirmar que é um efeito colateral à imunização. Mas, nas mãos dos conspiracionistas, a suspeita - que está sendo investigada - virou certeza absoluta e prova da ineficácia da substância contra a covid.

O desenvolvimento de vacinas, quando sério, segue rigorosos protocolos de testes para assegurar não apenas a eficácia, mas, principalmente, a segurança das pessoas. Por isso, a vacina que vem sendo desenvolvida na Rússia foi tão criticada quando anunciada - não havia informação sobre os testes e seus resultados.

O anúncio da suspensão condiz com esse cuidado e com a transparência que deve orientar esse processo.

Mas, para o movimento antivacina, isso demonstra que o produto faz mal a seres humanos e está sendo desenvolvido apenas para deixar as indústrias farmacêuticas mais ricas. Sabemos que muitas delas têm menos ética que um anticoncepcional de farinha, mas isso não invalida o uso e a importância de vacinas. Que nos ajudam a viver mais e melhor.

Isso quando não estamos falando daquele pessoal nível hard que acha que a vacina vai servir para a implantação de chips para sermos rastreados e controlados a partir de torres de celular 5G chinesas. Isso o Globo Repórter não mostra. O que comem? Onde vivem? Como se acasalam os que acreditam nessas coisas?

Toda essa doideira é alimentada por muita fake news e boatos. A notícia boa é que a imprensa e as agências de checagem vêm fazendo um trabalho importantíssimo para desmentir essas groselhas. A má notícia é que muita gente, mesmo informada, prefere as convicções de sua tribo do que os fatos com comprovação. A ignorância é um lugar quentinho.

Como desgraça pouca é bobagem, o presidente da República vem insistindo em dizer que a vacinação não deve ser obrigatória - o que provoca orgasmos múltiplos na galera já citada.

Manifestação para marcar o Dia da Independência se tornou ato antivacina que pedia ao prefeito de Curitiba tratamento com cloroquina - Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress - Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress
Imagem: Eduardo Matysiak/Matysiakfotopress

Está fazendo uma guerra de semântica e, com isso, colocando mais uma vez a saúde pública em risco.

Nesta terça (8), Jair Bolsonaro disse que não se pode "amarrar o cara e dar a vacina nele". Ele sabe que picar pessoas à força é coisa de um passado de mais 100 anos atrás e que, hoje, a obrigatoriedade é feita por outros tipos de pressão. Por exemplo, quem não mantém as vacinas dos filhos em dia perde o direito a continuar recebendo o Bolsa Família.

Sabe, mas quer contar a mentira para causar apreensão em uma parcela dos cidadãos desinformados e, logo depois, deixar claro que, do alto de seu respeito pela democracia, nunca irá permitir isso. Cria o monstro e já se mostra como o salvador para a ira desse monstro.

Nunca a humanidade produziu uma vacina tão rápido para uma pandemia. Exatamente por conta disso é que os testes são importantíssimos e não podem deixar falhas.

Com o crescente movimento antivacina, médicos e cientistas apontam que colocar no mercado um produto sem resultados transparentes sobre todas as etapas de testes, e portanto, menos seguro, terá impactos não apenas em quem for inoculado com o produto e na sociedade que acreditar que ele funciona, como também sobre campanhas de vacinação envolvendo outras doenças.

Ou seja, a credibilidade da imunização em massa e da ciência também está em jogo.

Quem desconhece o processo científico, acha tudo isso assustador. O que deveria servir de lembrete para a importância do ensino da ciência - sob risco diante dos cortes orçamentários no governo federal e no governo do Estado de São Paulo.

Mas assustador mesmo, de verdade, é uma sociedade na qual brotam protestos, como o realizado em Curitiba, no 7 de setembro. Fotos e vídeos do jornalista Eduardo Matysiak viralizaram na rede, com gente erguendo cartazes que diziam "não queremos a vacina, nós temos a cloroquina".

Tradutor: Bolsonaro e suspensão em Oxford excitaram conspiracionistas antivacinação

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto