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Leonardo Sakamoto

"Nada de se acovardar": Dica de Bolsonaro vale para todos, exceto Flávio?

Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do hoje senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente - Reprodução
Queiroz (à dir.) é ex-motorista e ex-segurança do hoje senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente Imagem: Reprodução
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

21/09/2020 19h27

"Nada de se acovardar perante aquilo que nós não podemos fugir dele", afirmou Jair Bolsonaro, na última sexta (18), para uma plateia de ruralistas em Sorriso (MT). Ele criticava (mais uma vez) as quarentenas adotadas para combater a pandemia, que já matou 137 mil.

A bravata presidencial serve para quem não tem o seu sobrenome, claro. Como os camponeses, trabalhadores e demais produtores rurais que foram para o sacrifício a fim de manter o país e o exterior abastecidos de alimentos e matérias-primas mesmo com a covid.

Para seu filho primogênito, por outro lado, a recomendação é outra. Passa por fazer o que for necessário para garantir a própria sobrevivência política e a de seu clã.

Flávio Bolsonaro não compareceu à acareação com Paulo Marinho, nesta segunda (21), na sede do Ministério Público Federal no Rio. O empresário, seu ex-aliado, acusou o senador de ter sido avisado com antecedência, através de um delegado da Polícia Federal simpatizante de seu pai, que a batata estava assando para o seu faz-tudo na época, Fabrício Queiroz.

Isso teria interrompido a farra de desvio de recursos públicos do então gabinete de Flávio na Assembleia Legislativo do Rio, em 2018, antes que viesse uma "pica do tamanho de um cometa" - para usar uma expressão do Dicionário Laranja-Português-Laranja.

Flávio disse nesta segunda, através de sua defesa, que tinha compromissos previamente agendados em Manaus (AM). E que iria sugerir uma nova data, rechaçando que teria se escafedido. E, assim, como fez Queiroz, o senador vai enrolando o sistema de Justiça para ganhar tempo.

O MPF disse que Flávio só poderia ter faltado em casa de doença. Ele, benzadeus, está bem de saúde. Tanto que cantou uma paródia e fez uma dancinha em um programa de TV em Manaus.

Há uma grande dose de cinismo quando o presidente diz que determinado comportamento "é para os fracos", como fez em Sorriso ao dizer que ficar em casa para combater a doença era sinal de frouxidão.

Como ele avalia, então, seu filho estar desviando de uma acareação? Flávio não é o mais interessado em resolver tudo isso? Por que demora tanto para apresentar respostas?

Bolsonaro também disse que o vírus era uma realidade e, portanto, deveria ser enfrentado. Mas as dúvidas que pairam contra Flávio junto ao MPF ou na investigação tocada pelo Ministério Público do Rio não são ficção, mas também uma realidade.

E o que mais tem acontecido desde que a história das "movimentações atípicas" na conta de Queiroz veio a público, no final de 2018, é a primeira-família fazer a egípcia, fingindo que não é com eles. Daí, surgiram as rachadinhas, a lavagem de dinheiro, o envolvimento de milicianos e matadores de aluguel. A sujeira varrida para baixo do tapete virou uma montanha.

O conselho "nada de se acovardar perante aquilo que nós não podemos fugir dele" não serve para os Bolsonaros?

Deve ser o mesmo processo de negação que levou ao presidente, quando questionado por um jornalista do porquê de a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, ter recebido R$ 89 mil de Fabrício Queiroz e de sua esposa, Márcia Aguiar, responder: "Minha vontade é encher tua boca com uma porrada". Corajoso porque cercado de seguranças, é claro. 

O que nos leva a crer que, se o conselho fosse bom, Bolsonaro não dava. Rachava.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL