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Covid, 150 mil mortes: Responsáveis pela tragédia serão punidos um dia?

16.07.2020 - Vista do cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, onde houve aumento de sepultamentos por causa da covid-19 - Luis Alvarenga/Getty Images
16.07.2020 - Vista do cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, onde houve aumento de sepultamentos por causa da covid-19 Imagem: Luis Alvarenga/Getty Images
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/10/2020 19h48

No começo da pandemia, comparávamos seu horror a outras tragédias que aconteceram em solo brasileiro para tentar mostrar a dimensão da perda humana.

Mas, neste sábado (10), ao chegarmos à marca de 150 mil óbitos por covid (o equivalente a 753 acidentes com aviões da TAM, como aquele de julho de 2007, ou a 555 rompimentos de barragens da Vale, como aquela de Brumadinho, em janeiro de 2019), essas comparações perderam o sentido.

Até porque a escala passou a ser outra. Os 150 mil equivalem a uma bomba ter sido jogada contra cidades do tamanho de Balneário Camboriú (SC), Sinop (MT), Porto Seguro (BA) ou Botucatu (SP) e dizimado todos os seus habitantes.

Quando políticos brasileiros, como o presidente da República, forem julgados criminalmente, no futuro, por terem aumentado a letalidade da doença quando poderiam tê-la reduzido, espero que também pese o processo de banalização da morte pelo qual estamos passando.

Sim, um dos legados de Jair Bolsonaro será um Brasil que se preocupa menos com a vida.

No momento em que a pandemia fez sua primeira vítima por aqui, no dia 17 de março, imaginava-se que se os óbitos ultrapassassem marcas como a de hoje, teríamos protestos contra um governo que, naquela época, já se notabilizava pelo negacionismo e a insensibilidade.

O tempo passou, taxas altas de mortes diárias se tornaram o novo normal e a convulsão não veio, apenas breves ensaios. E não é por que a pandemia impede aglomerações, pois convulsões não consultam taxa de infecção para acontecer.

No auge da infecção, tivemos um naco da sociedade que pouco se importou se uma montanha de brasileiros vivia ou morria, contanto que não fosse ele. E era tapado ou egoísta o bastante para não acreditar que podia vir a ser ele. Não que estivesse desconectado da realidade, mas achava que realidade é coisa de comunista.

Outro grupo, diante do aumento paulatino de vítimas da tragédia, acabou por tentar normalizá-la. Não por ser insensível, longe disso, mas foi a maneira que encontrou para enfrentar o medo da morte sem surtar diariamente.

E houve aquele que foi escolhido pela sociedade para ir ao sacrifício, entregando comida, transportando pessoas, recolhendo o lixo, lavando cuecas e varrendo a casa de terceiros. Nele, também estavam os empreendedores populares, que aceitaram o risco de morrer diante do risco ainda maior da falência sob um governo que ignorou o quanto pode o pequeno e o microempresário na pandemia. Esse naco soube dos riscos que corria, mas ia fazer o quê?

Enquanto isso, Bolsonaro executava uma campanha sistemática de desinformação sobre a covid-19 que pavimentou sua necropolítica.

Ele mentiu ao dizer que quarentenas não funcionaram para retardar a propagação do vírus; ao afirmar que o isolamento social não teve impacto positivo; ao chamar a pandemia de "gripezinha" e "resfriadinho"; ao defender que a hidroxicloroquina deve ser usada no tratamento da doença mesmo com provas de que ela não funciona (Donald Trump, que a defendia tanto, ao ficar doente, não a usou...); ao cravar que a crise econômica causada pelo vírus mata tanto quanto ele próprio; ao dizer que o Supremo Tribunal Federal afirmou que são prefeitos e governadores os únicos responsáveis pela política contra a covid quando a corte não disse isso.

Seu mau exemplo não ficou apenas em declarações bizarras e orientações fajutas. O presidente causou danos à saúde pública através de suas ações. Como as aglomerações que promovia em dias de manifestações a favor de autogolpe militar e do fechamento do Congresso Nacional e do STF.

Inspirados nele, muitos brasileiros relativizaram a importância de se cuidar e, ao fazer isso, passaram adiante o vírus a quem não tinha nada a ver com a história. Resultado: mais mortes.

O problema é que uma possível punição a ele e a outros tantos políticos em nível estadual e municipal que não cuidaram da população como deveriam dificilmente ocorrerá agora. No que pese as necessárias investigações e punições a governos que desviaram recursos públicos da saúde em plena pandemia, a questão é mais embaixo.

Por exemplo, aliados e vassalos no Congresso Nacional, na Procuradoria-Geral da República e no Supremo Tribunal Federal encaram todos os crimes do presidente como mera questão de "opinião" ou decisão de "gestão". Montesquieu dá um duplo twist carpado no túmulo.

Punições também dependem de sua popularidade. Bolsonaro devia agradecer ao Congresso Nacional por ter evitado que pagasse uma merreca como auxílio emergencial, como pretendia originalmente sua equipe econômica. Ele, que ganhou popularidade por conta dos bilhões injetados na economia, sabe que ao grosso da população não compartilha o mesmo desprezo pela vida que ele. Mas é pragmática. E, por isso, luta por um programa de renda mínima para chamar de seu.

O contexto para a responsabilização é difícil. A morte em massa não mexe conosco em 2020 como acontecia antes. A morte do indivíduo ainda dói - e muito. Mas a morte coletiva virou rotina e se esvaziou. Não que milhões de pessoas não tenham medo de morrer ou de perder uma pessoa querida por causa da doença. Mas centenas de brasileiros ainda perdem a vida todos os dias por um motivo estúpido e, em grande parte, evitável se tivéssemos governo.

"Brasil acima de tudo, Deus acima de todos"? Não. Como o presidente tanto repetiu ao longo dos últimos meses, o verdadeiro lema de sua gestão é "A gente lamenta a morte, mas é o destino de todo mundo". Se não formos capazes de enfrentar isso, que as próximas gerações sejam melhores do que nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL