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Tatto pode desidratar Russomanno e empurrar Boulos para o 2º turno?

Estadão Conteúdo e divulgação
Imagem: Estadão Conteúdo e divulgação
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

16/10/2020 15h19

Podemos viver uma situação inusitada na eleição de São Paulo: se Jilmar Tatto desidratar Celso Russomanno, mas não o suficiente para ultrapassar Guilherme Boulos, e Márcio França não crescer, o PT pode acabar ajudando a empurrar o PSOL para o segundo turno.

Tatto (PT) cresceu sobre o público que apoia Russomanno (Republicanos), de acordo com pesquisa Ibope sobre a corrida eleitoral para São Paulo, divulgada nesta quinta (15). Com isso, avançou sem tirar de Boulos (PSOL), que também aumentou suas intenções de voto.

O coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) estava com 8% das intenções, no dia 2 de outubro, e passou para 10% neste levantamento. O ex-secretário dos Transportes dos governos Fernando Haddad e Marta Suplicy foi de 1% para 4% no mesmo período.

Como a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, Boulos podia ter entre 5% a 11% das intenções de voto na pesquisa anterior e, agora, pode ter entre 7% e 13%. Já Tatto, que tinha de zero a 4%, passou para 1% a 7%.

Uma parte da classe média baixa de caráter populista já foi ademarista, passou para malufista, tornou-se lulista até aderir ao bolsonarismo. Parte dela, que está com Russomanno, pode ir para Tatto - a depender do impacto da campanha em rádio e TV, da ação da militância e da transferência de votos de Lula.

De acordo com o Ibope, Celso Russomanno lidera com 25%, seguido por Bruno Covas (PSDB), 22%, Boulos, 10%, Márcio França (PSB), 7%, Tatto, 4%, e Arthur do Val (Patriota), 2%.

Esta é uma eleição atípica, realizada em meio a uma pandemia que prevê o distanciamento social, com redes sociais e WhatsApp ostentando força, e igrejas desempenhando um papel relevante. Não é possível afirmar, por exemplo, que Russomanno, candidato ligado à Igreja Universal, irá desidratar como aconteceu em eleições anteriores.

Será preciso acompanhar o comportamento do eleitorado nas próximas pesquisas. Mas há indicativos de elementos interessantes.

Na comparação entre as pesquisas, Russomanno foi de 34% para 29%, entre os eleitores com ensino médio. Tatto passou de 1% a 6% e Boulos permaneceu com 6%. Como referência: enquanto Russomanno e Tatto mantiveram-se estáveis entre quem tem curso superior, Boulos foi de 14% para 20%.

Entre quem ganha de dois a cinco salários mínimos, Russomanno foi de 27% para 23%, e Tatto de 2% para 5%. Boulos ficou praticamente estável, de 10% para 11%. E entre quem ganha entre um e dois salários mínimos Russomanno foi de 31% para 27% e Tatto, de 2% para 4%. Boulos foi de 5% para 8% - aqui o fator Luiza Erundina, deputada federal e sua vice, não pode ser desprezado.

Entre os eleitores que se declararam católicos, Russomanno caiu de 26% para 20%, enquanto Tatto subiu de 1% para 5%. O coordenador do MTST foi de 6 para 5%, mantendo estabilidade.

Outro dado da pesquisa Ibope é que o início do horário eleitoral gratuito em rádio e TV pode ter colaborado para reconectar parte pobre da população com a memória dos anos do governo Lula. Entre quem ganha até um salário mínimo, Russomanno passou de 35% para 33% e Tatto de 1 a 6%.

A chance da construção de uma frente única de esquerda para a eleição em São Paulo é praticamente nula a esta altura do campeonato, pelo que coluna apurou. Mas da mesma forma que já aconteceu em corridas eleitorais anteriores, há grande chance de uma migração natural da esquerda em direção ao melhor colocado na semana anterior a 15 de novembro, dia da votação, em uma espécie de voto útil.

A questão, já discutida no PT e do PSOL, é: qual o patamar que leva uma candidatura, na reta final, a ser abandonada pelos eleitores em nome de outra, no mesmo campo ideológico, que está melhor posicionada para ir ao segundo turno? Quatro, cinco, oito, dez pontos de distância?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL