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Leonardo Sakamoto

Volta à escola: Bolsonaro e Mourão vêm perturbar debate que já era tenso

Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/12/2020 12h59

Após o presidente Jair Bolsonaro defender o retorno às aulas presenciais no momento em que a pandemia volta a escalar no Brasil, o seu vice, Hamilton Mourão, apoiou o posicionamento do capitão com uma generalização grosseira.

"Acho que há uma certa hipocrisia nisso aí. A mesma turma que não quer voltar [para as aulas presenciais] vai para a balada, vai para bar... Então, vamos ser coerentes nas coisas. Se não pode, não pode, para tudo", disse nesta quinta (3).

O debate sobre o retorno às aulas presenciais já tem sido complexo e exaustivo envolvendo estudantes, famílias, professores, pedagogos e diretores de escolas que agem de forma racional, buscando a qualidade de vida da coletividade, ponderando a letalidade de uma pandemia assassina, o impacto social e psicológico do longo isolamento em crianças e jovens e a situação escolar precária de famílias pobres sem acesso à internet. Pois há argumentos de ambos os lados. Agora, imagine quando o debate envolve políticos que colocam, em primeiro lugar, a agenda do governo do qual fazem parte.

O que o vice fez, neste caso, foi anular a opinião de quem defende que um retorno agora pode espalhar ainda mais a covid entre as famílias - crianças e jovens apresentam baixa taxa de mortalidade, o problema são os mais velhos que moram com eles. Ignora, dessa forma, o receio de milhões que nem vão para a escola, nem para a balada. 

Ao colocar todos os estudantes em um mesmo balaio para tentar reforçar seu argumento, o general da reserva acaba legitimando generalizações bobas que fazem com membros das Forças Armadas, por exemplo. Como aquelas que dizem que todo militar considera torturadores da ditadura como heróis. Ou que todos são favoráveis, em alguns casos, a uma "intervenção militar" (a.k.a golpe).

(Essas, aliás, são opiniões do próprio Mourão, que já chamou o açougueiro Brilhante Ustra de "herói", em 2018, e afirmou que uma "intervenção militar" poderia ser necessária se a Justiça não agisse contra a corrupção. Intervenção que seria imposta através de "aproximações sucessivas", como comentou em 2017.)

O vice tem razão em uma coisa: se não pode, não pode. Todos estamos esgotados, mas aglomerações deveriam ser combatidas pelo poder público. O problema é parte desses jovens estão na rua exatamente porque o chefe dele, o presidente, defende, o tempo todo, o "libera geral".

Bolsonaro disse a apoiadores, nesta quarta, que o governo estava tentando uma volta às escolas. "Conversei agora com o ministro da Educação. Queremos voltar às aulas presenciais em todos os níveis, mas os reitores agora chegaram nele... 'não, queremos só começar em 2022'. Aí, no meu entender, não tem cabimento".

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, havia baixado, na terça, uma portaria para que as universidades federais e particulares adotassem aulas presenciais como padrão já em janeiro. Diante de intensas reclamações, citando UTIs lotadas com pacientes de covid e falta de perspectiva de uma vacinação de professores no primeiro semestre de 2021, o MEC afirmou que revogaria a decisão.

O presidente, desde o começo, tem forçado a barra para que população retome o seu cotidiano - o que inclui a volta às aulas presenciais. Para isso, emprega todo o seu arsenal. No dia 10 de novembro, usou um xingamento homofóbico - "maricas" - para se referir aos brasileiros que têm medo de morrer de covid-19. Para ele, se ficarmos doentes, é só tomar cloroquina, por mais que nada indique que o produto funcione contra a doença.

E se alguém morrer ao voltar às atividades normais? "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", disse ele no dia 2 de junho. O governo federal segue acreditando que o impacto de 174,5 mil mortos (e contando) vai ser menor junto à população do que os 14,1 milhões de desempregados (e contando). Precisa das escolas e creches funcionando para que as pessoas possam sair e trabalhar.

O problema é que quem define o retorno da economia não é um capricho de médicos e pesquisadores, mas a dinâmica do vírus. E o vírus pouco se importa com esses debates. Até porque, é um vírus.

Poderíamos já ter voltado às aulas se a situação não tivesse piorado. Mas também é generalização boba culpar todos os prefeitos e governadores, como o presidente gosta de fazer, ou mesmo a própria população por isso. Se há um grande culpado, é ele e seu governo, que se aliaram ao vírus.

Não tivemos um líder que articulou a nação para atravessar um momento sombrio, o que tornou o isolamento social menos eficiente e o arrastou para muito além do necessário. Lamentamos todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL