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Leonardo Sakamoto

Colapso em Manaus não é acidente, mas fruto do projeto bolsonarista

Parentes assistem a funeral de vítimas da covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus, Amazonas                              - MICHAEL DANTAS / AFP
Parentes assistem a funeral de vítimas da covid-19 no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus, Amazonas Imagem: MICHAEL DANTAS / AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

14/01/2021 17h32

Manaus está sem oxigênio em hospitais. Pacientes estão sufocando.

O aumento súbito na demanda por leitos de UTIs para covid-19 e por oxigênio ocorre duas semanas após as festas de final de ano. Nesse período, o presidente da República, mais uma vez, plantou irresponsabilidade ao incentivar as pessoas a ignorarem o isolamento social e a aglomerarem-se. Segundo ele, medo da covid é coisa de "maricas" e "todo mundo morre um dia". O impacto negativo de seu governo consegue superar o de qualquer mutação do coronavírus.

Wilson Lima (PSC), governador do Amazonas, anunciou, nesta quinta (14), toque de recolher noturno para reduzir o número de casos, que também já levou a novo colapso nos cemitérios. Em dezembro, ele voltou atrás em um decreto com restrições a atividades não-essenciais, que poderia ter salvado vidas, após pressão de empresários e deputados bolsonaristas.

A coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, apontou que administradores dos hospitais da capital amazonense e pesquisadores confirmam o atual cenário de terror. Parentes compram cilindros individuais para tentar salvar familiares e pessoas com outras doenças que dependem do insumo também estão sendo afetadas. O que será de recém-nascidos que precisam de respiradores, por exemplo?

O governo federal está transferindo pacientes para outros Estados, em caráter emergencial. Há gente passando vergonha e batendo palma para o que eles chamam de "logística de guerra" nas redes sociais, quando isso, na verdade, é uma derrota que poderia ter sido evitada se tivéssemos governo. Temos um vácuo sentado no Palácio do Planalto.

Afirma-se que o suprimento de oxigênio acabou devido a um salto inesperado no número de casos. Não, não foi surpresa. Infectologistas, epidemiologistas e cientistas apontavam que a redução no isolamento, incentivado por autoridades como o presidente, cobraria um preço altíssimo no meio de janeiro. Inesperado é um meteoro destruir uma cidade de 207 mil habitantes. O que estamos vendo no Brasil é projeto.

Após deixar milhões de testes para covid-19 vencerem em um depósito do governo em Guarulhos (SP) e apresentar um plano picareta para a distribuição da vacina, o ministro da Saúde e especialista em logística (sic), general Eduardo Pazuello, vê pacientes morrerem sufocados em Manaus por falta de oxigênio.

Pazuello não surgiu de geração espontânea a partir de uma farda vazia num armário. Foi Jair Bolsonaro que o colocou lá.

Medalhista na modalidade Arremesso de Responsabilidade à Distância, o presidente correu para jogar a culpa apenas nas costas do governo estadual e da prefeitura local. Na terça (12), afirmou que ambos deixaram acabar o oxigênio e que Pazuello tinha ido à capital para resolver a situação. Medalha de ouro.

Apesar de ter entrado para o anedotário mundial, Maria Antonieta, rainha da França no século 18, nunca disse "se o povo não tem pão, que coma brioches". Também não há registro de que Pazuello tenha dito: "se o manauara quer oxigênio, que engula cloroquina". Mas foi o que, de fato, fez.

Em um dos lances mais bizarros desde que começou a pandemia (e olha que a competição é acirrada), o Ministério da Saúde pressionou a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina, remédios usados contra malária, lúpus e infestação por vermes, como tratamento precoce para a covid, como informou o Painel, da Folha de S.Paulo. Poderia ter garantido o estoque de oxigênio ou viabilizado uma vacina, mas optou por forçar para que aceitassem "feijões mágicos".

Se o governo federal, desde o início da pandemia, tivesse assumido a articulação no combate à doença, saberia quando Estados e municípios precisariam de insumos. Assim, problemas seriam evitados e pessoas não morreriam. Transportar pacientes agora é corrigir um erro, não mostrar competência. Preferiu abraçar o vírus como um velho amigo.

O presidente não cansa de repetir que o Supremo Tribunal Federal o deixou de mão atadas por entregar o combate à pandemia a governadores e prefeitos. Mentira. O STF afirmou que eles também têm poder para definir medidas, como quarentenas, não que o governo federal não tinha que se envolver. Vale lembrar que, se dependesse de Bolsonaro, não haveria quarentenas. E, com isso, teríamos mais mortos.

É um atestado de incompetência carimbado na testa o fato de que o alerta da falta de oxigênio seja tanto a asfixia de doentes quanto a tortura física e psicológica de profissionais de saúde, obrigados a ventilar manualmente pacientes para afastá-los da morte.

O salto de internações e óbitos em Manaus não é uma situação isolada, portanto, mas o prenúncio de que vem por aí uma evitável colheita de óbitos.

Há nuvens escuras no horizonte. Parece uma tempestade.