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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Intervenção na Petrobras: Autonomia de Guedes serve para dizer 'sim, chefe'

01.set.2020 - O ministro da Economia, Paulo Guedes e o presidente da República, Jair Bolsonaro - Marcos Corrêa/Presidência
01.set.2020 - O ministro da Economia, Paulo Guedes e o presidente da República, Jair Bolsonaro Imagem: Marcos Corrêa/Presidência
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

20/02/2021 12h23

Paulo Guedes é, hoje, menos um economista com um projeto de país e mais uma pessoa que topa trocar sua dignidade pela manutenção de algum poder. A intervenção descarada no comando da Petrobras, nesta sexta (19), por parte do presidente da República, após prometer que não interviria, foi mais um exemplo de que o ministro tem autonomia sim, desde que seja dizer "claro, chefe".

Vale ressaltar que Bolsonaro gosta de Guedes. Por que Guedes é um dos ministros mais bolsonaristas da Esplanada. A diferença entre ele e nomes como Damares Alves, Ernesto Araújo e Ricardo Salles é o verniz lambuzado pelo mercado e por uma parte da mídia, que atrela a ele a imagem de fiador do equilíbrio.

O ministro "equilibrado", contudo, já disse que empregada doméstica viajava demais para a Disneylândia. Alertou, diante do risco de manifestações contra o governo, que ninguém se assustasse com um novo AI-5 (e, por conta do verniz, apanhou bem menos que o deputado Daniel "Surra de Gato Morto" Silveira ou que Eduardo Bolsonaro, que também fizeram apologia ao ato institucional que autorizou o pega pra capar na ditadura). Reclamou que rico poupava, mas que pobre gastava tudo o que ganhava (por que será, né?). E retarda a renovação do auxílio emergencial, usando o benefício como chantagem para aprovar reformas econômicas.

Ao longo destes dois anos e dois meses de governo, a autoestima do ministro deu alguns espasmos públicos, provando que segue viva. No dia 11 de agosto do ano passado, chegou até a mandar um duro recado ao presidente da República. Disse que conselheiros de Bolsonaro estavam sugerindo ao chefe "pular a cerca" e furar o teto dos gastos. E que isso levaria ao impeachment. 

Mas também reafirmou que Bolsonaro o apoiava - o que passou a impressão contrária. Afinal, de acordo com a regra de ouro dos filósofos Baden Powel e Vinícius de Moraes, "o homem que diz 'sou' não é".

Enquanto Bolsonaro mostra que seu projeto de país é a manutenção dele no poder, Guedes tem tocado uma nota só: a redução do Estado. Ambos não demonstram muita coisa além disso. No dia 26 de janeiro, por exemplo, o ministro afirmou que o Brasil pode crescer 5% este ano. Não apresentou dados que comprovassem isso, o que faz dela uma declaração lastreada apenas na força do querer, como tantas outras que ele tem emitido.

"Se deixarmos de lado essa psicologia derrotista, esse descredenciando a democracia, essa vontade de ganhar de qualquer forma o poder político, eu acho que podemos de novo surpreender. O Brasil pode crescer 5%", disse. "Se trabalharmos em vez de jogarmos pedra um no outro, vamos crescer mais", completou.

Lembremos que o último a descredenciar a democracia foi um deputado bolsonarista da base do governo que disse que daria uma surra de gato morto na cara de um ministro do STF após o almoço. E que seu chefe, o presidente da República, é quem mais dá pedrada nos brasileiros. E é bom de mira. O resultado disso são quase 250 mil mortos por covid-19 e mais de 14 milhões de desempregados.

A falta de projeto (e de bom senso) deu as caras em outros momentos-chave. Em março do ano passado, Guedes fez um cálculo e disse que com até R$ 5 bilhões, "a gente aniquila o coronavírus". Segundo ele na época, "já existe bastante verba na Saúde, o que precisaríamos seria de um extra".

E como solução para o coronavírus recomendou algo que levaria muito tempo para ser aprovado e teria um impacto (duvidoso) de longo prazo: "Se promovermos as reformas, abriremos espaço para um ataque direto ao coronavírus". Só uma pessoa que vê linhas de planilha no lugar de pessoas poderia propor combater o coronavírus com reformas.

O governo, ao final, planejou gastos da ordem de R$ 625 bilhões por conta da pandemia em 2020. Ou seja, 125 vezes mais.

Como já disse aqui, os ultraliberais acharam que Bolsonaro seria o Pinochet certo na hora certa e colocaria a agenda deles em primeiro lugar. Da mesma forma, lavajatistas chegaram à loucura de vender o presidente da "rachadinha" como um lutador contra a corrupção nas eleições de 2018. Sergio Moro, que ajudou a elegê-lo e depois assumiu o Ministério da Justiça, que o diga. Quando seus planos pessoais bateram de frente com os de Bolsonaro, foi largado na beira da estrada. Moro, hoje, olha para Guedes e pensa: eu sou você amanhã.

No segundo semestre de 2020, o ministro da Economia percebeu que, para o presidente, insubstituível é apenas ele mesmo e sua família. Há sempre um chinelo velho esperando um pé cansado. Em agosto, o chinelo chegou muito perto de ser trocado.

Ao final do ano, em um episódio de grande lucidez, Guedes afirmou: "Sou demissível em 5 minutos. Quem é que é super[ministro] se pode ser demissível em 5 minutos? Sou um ministro como todos e sou o mais vulnerável".

Ele é super sim, desde que diga amém para o chefe.

Bolsonaro vai se entregar ao populismo daqui até outubro de 2022. Vai ser divertido ver o contorcionismo que Paulo Guedes vai dar para justificar a permanência no cargo de ministro em meio a isso. E ver o que uma parte do mercado vai continuar dizendo para apoiar o capitão. Insistirá no autoengano ou optará pela saída fácil do "pelo menos não é o PT"?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL