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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Toque de restrição' de Doria será pouco efetivo contra mortes por covid

Enterro de vítima do coronavírus no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo - Robson Rocha/Agência F8/Estadão Conteúdo
Enterro de vítima do coronavírus no Cemitério da Vila Formosa, na zona leste de São Paulo Imagem: Robson Rocha/Agência F8/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

24/02/2021 18h07

O governo de São Paulo anunciou, nesta quarta (24), que aumentará fiscalização e multas para restringir a circulação de pessoas, das 23h às 5h, entre os dias 26 de fevereiro e 14 de março, a fim de evitar aglomerações e festas e reduzir a transmissão do coronavírus. O governador João Doria (PSDB) chamou a medida de "toque de restrição", afirmando que não representa um "toque de recolher", nem um bloqueio completo, o chamado "lockdown".

Tomada em meio ao aumento no número de internações por covid-19, a decisão foi considerada branda e pouco efetiva por especialistas ouvidos pela coluna.

"É para inglês ver - e para a variante inglesa da covid, e as demais variantes, verem e pouco se importarem também", afirmou a doutora em microbiologia e diretora do Instituto Questão de Ciência Natália Pasternak.

Para ela, é estranho implementar a restrição da mobilidade em um momento do dia em que ela já é reduzida. "Parece que realmente falta coragem para implementar medidas que sejam de fato restritivas e tenham impacto na transmissão", diz Pasternak.

O infectologista Marcos Boulos, ex-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e integrante do Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo, também considera o anúncio como insuficiente.

"O Centro de Contingência tem reiteradamente dito que está ficando insuportável o número casos de covid que pedem UTI e sugerido ao governador ações mais rígidas. Cidades estão indo ao caos e pacientes morrendo", alerta.

Lockdown reduziria mortes e facilitaria a retomada da economia, diz Boulos

"A situação é mais alarmante que no ano passado. Parece que as recomendações à população [de distanciamento social] não estão mais sendo levadas a sério." Ele defende que o toque de restrição tenha horários ampliados e ocorram punições elevadas a aglomerações e festas.

Boulos pondera que não está sendo tranquilo para o governo mediar a questão sanitária com a pressão econômica de setores que defendem a liberação de atividades diante da possibilidade de falências e demissões.

Mas defende um fechamento como os que ocorreram na Inglaterra e em Portugal, isolando a população por algum tempo. Para ele, isso fará com que, em algumas semanas, voltemos a uma vida (quase) normal. Alerta que, se ficarmos nesta situação, a pandemia acabará se arrastando por mais tempo, o que prejudicará mais ainda a economia.

Para que isso ocorresse, seria necessário que o governo federal já tivesse renovado o pagamento do auxílio emergencial a fim de garantir alguma dignidade a famílias de trabalhadores informais.

Contudo, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial para estender o auxílio foi usada como Cavalo de Troia para um ajuste fiscal, com medidas alienígenas como o fim da obrigatoriedade dos gastos mínimos em educação e saúde. Contrariados com a manobra do governo Jair Bolsonaro (sem partido), parlamentares não devem aceitar o texto, o que fará com que o benefício atrase ainda mais.

Enquanto isso, São Paulo vai piorando.

"A situação é muito ruim nos hospitais privados, mas os hospitais públicos estão piorando rapidamente", avalia André Nathan, pneumologista do Hospital Sírio-Libanês e professor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

"Se não houver ações por parte da população, com isolamento e uso de máscara, e medidas restritivas sérias por parte do governo, além da criação de leitos de UTI, podemos ter um colapso", avalia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL