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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Doria fecha São Paulo, mas mantém igrejas abertas de olho em 2022

João Damásio/O Fotográfico/Estadão Conteúdo
Imagem: João Damásio/O Fotográfico/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

03/03/2021 16h34

O governador João Doria (PSDB), no espaço de dois dias, realizou dois movimentos contraditórios quanto à adoção de medidas de combate à covid-19. Avisou, nesta quarta (3), que o Estado de São Paulo vai retroceder até a fase vermelha, a partir do final de semana e assim permanecerá por 14 dias. Será a situação mais restritiva de isolamento, ou seja, funcionam apenas atividades essenciais e escolas, respeitados os protocolos de saúde.

Mas divulgou, na segunda (1º), que assinou decreto para considerar como essenciais atividades religiosas de qualquer natureza, também obedecidas as determinações sanitárias. Ou seja, liberou o funcionamento de templos e igrejas. "Esperança, fé e oração, com vacinas, vamos vencer a covid. Viva a vida", afirmou o governador ao lado de líderes religiosos.

No dia 26 de março de 2020, em uma situação sanitária muito melhor do que agora, Doria adotava outro discurso. "Faço aqui um apelo como cidadão, como brasileiro e também como governador de São Paulo, para que os dirigentes de igrejas e que compreendem a dimensão da gravidade que temos sobretudo aqui no estado de São Paulo e possam fazer seus cultos e encontros virtualmente", afirmou em uma coletiva.

Essa mudança pode soar estranha para um governante que afirma tomar decisões guiadas pela ciência. Mas é totalmente esperada de um pré-candidato à Presidência da República. Como Jair Bolsonaro tem ampla vantagem entre muitas denominações religiosas, e a pressão por respaldar a abertura das igrejas estava grande, Doria trouxe "oração" para o lado da "vacina".

O problema é que São Paulo bateu novo recorde, nesta terça (2), sendo responsável por 468 dos 1.726 óbitos registrados no país em 24 horas. Hospitais privados que atendem a elite paulista (e também a elite de outras capitais que vem se tratar de jatinho) estão com leitos esgotados. O sistema público caminha para a mesma direção.

Apesar dos grandes templos contarem com pé direito alto, grandes janelas e espaço suficiente para distanciamento social, a maioria dos locais de culto nas periferias são pequenos, fechados e com potencial de se tornarem covidários.

Claro que a participação em cultos religiosos é uma maneira de quem tem fé encontrar algum conforto em meio à loucura que estamos vivendo. Contudo, no momento em que o Estado retrocede à fase vermelha e a pandemia atinge níveis alarmantes, a decisão pode aproximar as pessoas de Deus. Literalmente.

Ao anunciar a volta da fase vermelha, Doria não citou igrejas e templos entre as atividades essenciais. "A fase vermelha permite o funcionamento apenas de setores essenciais, como saúde, educação, segurança pública e privada, construção civil, indústria, logística, abastecimento, transporte coletivo, comunicação social e serviços gerais", listou.

Como a decisão desagradou especialistas que fazem parte do Centro de Contingência da Covid-19, o comitê científico que assessora o governador, esse "lapso" pode ter sido útil para evitar fervura.

Instituições religiosas de qualquer natureza foram autorizadas a operar na pandemia pelo governo federal por terem sido enquadradas como atividade essencial, de acordo com o decreto presidencial 10.282, de 20 de março. Mas como Estados e municípios também têm competência para decidir sobre o que abre e o que não em quarentenas, a autorização dependia também deles.

O decreto estadual paulista 64.881, de 22 de março, que versa sobre atividades essenciais não tratava do assunto. E o decreto municipal 59.349, de 14 de abril, afirma que o horário de funcionamento de atividades religiosas é livre, desde que obedecidas as recomendações sanitárias. O problema é que ninguém deixou claro quais recomendações era essas.

O Ministério Público de São Paulo chegou a conseguir a proibição de cerimônias e reuniões presenciais na Justiça no ano passado, mas a liminar foi cassada. Atividades religiosas reabrindo na capital com o apoio de vereadores da bancada religiosa. Mesmo assim, algumas religiões ainda preferem transmitir seus serviços on-line para evitar aglomerações.

As igrejas menores sofrem mais com o fechamento em comparação às maiores, que já contavam com telecultos e dízimo via cartão de crédito. Mas as grandes também sentiram o impacto financeiro e simbólico do fechamento. E mesmo entre as grandes, não há consenso.

Questionado sobre a razão de igrejas negarem-se a colaborar, neste momento de pandemia, o líder de uma igreja evangélica que fechou as portas e passou a transmitir os cultos para evitar contágio afirmou à coluna que isso faz parte de um esforço para mostrar que a teologia que essas outras denominações vendem não é uma ilusão.

Segundo ele, alguns líderes religiosos afirmam que se as pessoas forem aos seus cultos, estarão seguros da covid-19 e não terão com o que se preocupar. Receberão um "upgrade" na vida. Esses líderes religiosos não podem, simplesmente, desistir dessa ideia e mandar os fieis para casa. "Porque, se não insistirem nisso, depois que o coronavírus passar, como vão continuar pregando essa justificativa?", questiona.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL