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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Efeito colateral do 'mimimi' de Bolsonaro é menos mansão de Flávio na mídia

Mansão do senador Flávio Bolsonaro - Divulgação
Mansão do senador Flávio Bolsonaro Imagem: Divulgação
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

04/03/2021 20h36Atualizada em 05/03/2021 08h38

O presidente Jair Bolsonaro estava inspirado nesta quinta (4). Inspirado até demais.

Em Uberlândia (MG), chamou de "idiota" quem pede que ele compre vacina. "Só se for na casa da tua mãe! Não tem para vender no mundo!", afirmou. Algumas horas depois, em São Simão (GO), pisou no acelerador e sapateou em cima daqueles que choram sobre seus mortos. "Vocês [produtores rurais] não ficaram em casa, não se acovardaram. Nós temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando?"

Já tratei no texto anterior sobre a função desse tipo de declaração na estratégia presidencial junto à sua base durante a covid ("se pegar, pegou, se morrer, morreu, bora trabalhar"). Mas esse não é o foco aqui.

Os discursos dele também mergulham abruptamente no absurdo e no grotesco quando deseja tirar o foco de algo. Não que essa não seja sua natureza, mas algumas vezes Bolsonaro parece bolsonarista até demais. E com declarações como essas, é impossível não ganhar destaques nas home pages dos principais veículos de comunicação e virar tendência nas redes sociais.

Como efeito colateral, sobra menos espaço no debate público para outros assuntos, como a compra de uma mansão de quase R$ 6 milhões por parte de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Denunciado por desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa, ele é acusado de comandar um esquema de "rachadinhas" quando era deputado na Assembleia Legislativa do Rio.

A compra da casa, revelada pelo site O Antagonista, na segunda (1), tem 1,1 mil m² de área construída, em um terreno de 2,5 mil m², e se localiza em uma área nobre de Brasília (DF).

De acordo com o Ministério Público, o esquema de Flávio envolvia lavagem usando compra e venda de imóveis e uma loja de chocolates no Rio. Coincidentemente, o valor que ele é acusado de desviar dos salários de servidores da Alerj é de R$ 6,1 milhões.

Exemplos de situações que funcionaram como cortinas de fumaça para o presidente

Alguns temas contam com potencial especialmente explosivo para a popularidade de Jair Bolsonaro junto aos seus seguidores e, por isso, são constantemente nublados com cortinas de fumaça produzidas pelo presidente da República, seus filhos e assessores.

No dia 20 de janeiro de 2020, Bolsonaro foi questionado sobre a investigação contra Flávio e seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, em frente ao Palácio da Alvorada. Como resposta, tratou da sexualidade de jornalistas. "Você tem uma cara de homossexual terrível, nem por isso te acuso de ser homossexual, se bem que não é crime ser homossexual", afirmou. Após um repórter perguntar sobre comprovantes de transações que envolviam Queiroz e sua família, gritou: "Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu pro teu pai, tá certo?"

Outro exemplo foram os áudios de WhatsApp divulgados pela imprensa, no dia 27 de outubro de 2019, mostrando que Fabrício Queiroz sentia-se abandonado por seu grupo político. "O cara lá está hiperprotegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. É só porrada. O MP tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente. Não vi ninguém agir", afirmou.

No dia seguinte, um vídeo postado nas redes sociais de Jair Bolsonaro comparou o presidente a um leão acossado cercado de hienas. Elas representavam o STF, os partidos políticos, os advogados da OAB, os bispos católicos da CNBB, a imprensa, entre outros. O leão era salvo por um outro, identificado como "conservador patriota". Ministros do Supremo reagiram com irritação. Marco Aurélio Mello afirmou, em entrevista à rádio CBN, que o vídeo era uma cortina de fumaça.

Outro exemplo: no dia 16 de julho de 2019, o ministro Dias Toffoli, do STF, atendeu a um pedido da defesa do senador Flávio Bolsonaro e suspendeu investigações sobre as movimentações atípicas dele e de Queiroz. O que gerou questionamentos por impactar outras investigações.

Daí, nos dias 18 e 19 de julho de 2019, Bolsonaro disse a jornalistas que "falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira"; teve uma conversa "vazada" referindo-se a gestores do Nordeste, de forma preconceituosa, como "governadores de Paraíba"; difamou a jornalista Miriam Leitão, dizendo que era mentira que ela havia sido torturada durante a ditadura militar; afirmou que o aumento no desmatamento da Amazônia apontado pelo INPE "não confere com a realidade"; e que se não pudesse impor controle sobre os filmes da Ancine, a agência seria extinta.

E, claro, temos o caso mais clássico. Bolsonaro foi alvo de críticas durante o Carnaval de 2019, sendo tema em blocos e desfiles. O debate público estava tomado pela pergunta "onde está o Queiroz", as ligações da família do presidente com milicianos e as denúncias de candidaturas laranjas envolvendo o PSL - partido pelo qual ele foi eleito.

Publicou, então, em sua conta no Twitter, o vídeo de um homem dançando em um ponto de táxi após enfiar o dedo no próprio ânus. Logo depois, aparece outro que urina na cabeça daquele que dançava. "É isto que tem virado muitos blocos de rua no Carnaval brasileiro", escreveu. No dia seguinte, postou a pergunta que se tornou icônica "o que é golden shower?"A repercussão tomou conta das redes sociais e de parte da imprensa por algum tempo.

Não é possível inferir que, em todos os casos, houve intencionalidade no efeito dispersivo. Mas, com certeza, a temperatura de um problema abaixa por conta das cortinas de fumaça formadas.

Enfim, nem todos somos idiotas, apesar de desejarmos que ele compre vacina. Mas, certamente, ele nos encara dessa forma. E deve rir muito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL