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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Coveiro da República, Bolsonaro bate recorde e soma 4.211 mortes em 24h

Enterro de vítimas de coronavírus no Cemitério do Cajú (São Francisco Xavier) no Rio de Janeiro - SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Enterro de vítimas de coronavírus no Cemitério do Cajú (São Francisco Xavier) no Rio de Janeiro Imagem: SAULO ANGELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/04/2021 20h48

O Brasil registrou 4.211 mortes por covid-19 nas últimas 24 horas. É a primeira vez que ultrapassamos quatro mil óbitos em um único dia. E graças à sistemática sabotagem do presidente, ou melhor, do sepultador da República no combate ao coronavírus, pode não ser a última.

Antes de mais nada, é preciso dar dimensão a essa montanha de mortos. Ela é maior que a somatória dos óbitos das dez maiores tragédias que o país viveu nos últimos 105 anos. Juntas, as dez, que chocaram milhões e pararam o Brasil, somaram 4.024 vítimas fatais - 187 a menos que a covid apenas neste 6 de abril de 2021. Tragédias são incomparáveis, mas isso serve para evitar que banalizemos dias como hoje.

1) Deslizamentos na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro: 918 mortos (janeiro de 2011) + 2) Onda de execuções promovida por agentes do Estado e membros do PCC em São Paulo (SP): 564 mortos, sem contar desaparecidos (maio de 2002) + 3) Incêndio do Gran Circo Norte-Americano em Niterói (RJ): 503 mortos (dezembro de 1961) + 4) Naufrágio do transatlântico Príncipe de Astúrias em Ilhabela (SP): 477 mortos (março de 1916) + 5) Deslizamento de terra sobre Caraguatatuba (SP): 436 mortos, sem contar desaparecidos (março de 1967) + 6) Rompimento da barragem da Vale em Brumadinho (MG): 259 mortos e 11 desaparecidos (janeiro de 2019) + 7) Incêndio na Boate Kiss em Santa Maria (RS): 242 mortos (janeiro de 2013) + 8) Queda do voo 447 da Air France no Oceano Atlântico: 228 mortos (junho de 2009) + 9) Acidente do voo 3054 da TAM em São Paulo (SP): 199 mortos (julho de 2007) + 10) Incêndio no Edifício Joelma em São Paulo (SP): 187 mortos (fevereiro de 1974) = 4.024.

Ironicamente, o recorde é atingido no dia em que o governo federal começa a liberar a "migalha emergencial" de R$ 150 a R$ 375 mensais. O benefício de fome não será o bastante para segurar ninguém em casa.

Bolsonaro sabe que nenhuma mãe ou pai ficará tranquilo enquanto seus filhos vão dormir com fome. Trabalhadores informais vão preferir tentar a sorte saindo em busca de bicos, contaminando-se em ônibus e trens lotados. E é isso o que Jair quer: todo mundo na rua, na torcida para algum grau de normalidade econômica. Pensa no ganho disso para a sua reeleição, não nas vidas perdidas, como sempre.

Em outra frente de batalha, ataca diretamente gestores que adotam quarentenas e lockdowns e insinua o uso do Exército para manter tudo aberto. Enquanto isso, o bolsonarismo incita motins policiais contra governadores que adotam o isolamento social.

"[Lockdown] não dá certo e não deu certo em lugar algum do mundo", disse ele. O mundo de Bolsonaro não inclui Araraquara (SP), que não registra mortes há dois dias pela primeira vez em dois meses. Nem grande parte da Europa.

Ao perceber que o bicho pegou e que o Brasil se tornou o cemitério de covid do mundo, o empresariado que apoiou o presidente partiu para o "cada um por si e Deus acima de todos". Quer, de qualquer jeito, comprar vacinas e distribuir para seus familiares e empregados, contornando a lei com uma outra lei. E como laboratórios só estão vendendo a governos, deseja que o Ministério da Saúde compre em nome deles. A cara de pau é tamanha que não há óleo de peroba o bastante para lustrá-la.

Temos visto, diariamente, que brasileiros não morrem de covid de forma pacífica e tranquila. Morrem asfixiados pela falta de oxigênio, de respiradores, de remédios para a sedação, de leitos de UTI devido à incompetência do poder público. Parte desses 4.211 sofreu muito antes de ir embora.

E parte será enterrada sem velório, em valas coletivas devido ao esgotamento de cemitérios. Algumas famílias não conseguirão encontrar as covas de seus entes queridos daqui a algum tempo.

Picaretagem, covardia, omissão, insensibilidade, irresponsabilidade. Necropolítica.

Sob Bolsonaro, o Brasil se tornou o pior lugar do mundo para se viver. Mas também o pior para morrer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL